domingo, 31 de enero de 2016

“O TEMPO DENTRO DO ESPELHO” de Thiago de Mello (De Num Campo de Margaridas, 1986)

O TEMPO DENTRO DO ESPELHO

O tempo não existe, meu amor.
O tempo é nada mais que uma invenção
de quem tem medo de ficar eterno.
De quem não sabe que nada se acaba,
que tudo o que se vive permanece
cinza de amor ardendo na memória.
O tempo passa? Ai, quem me dera! O tempo
fica dentro de mim, cantando fica
ou me queimando, mas sou eu quem canto
eu que me queimo, o tempo nada faz
sem mim que lhe permito a minha vida.
De mim depende, sou sua matéria,
esterco e flor do chão da minha mente,
o tempo é o meu pecado original.

Para cumprir-se, o tempo necessita
de tudo o que já fiz e se aproveita
da moça adormecida na campina
perante a minha dor adolescente;
dos cabelos da minha mãe tão moça,
tão valente na proa da canoa;
da lágrima no olhar do meu amigo
me dizendo "que pena, eu vou morrer";
do meu primeiro filho perguntando
"para onde vai o mar quando é de noite?",
da tua mão na minha dentro da água;
do medo que eu senti na cordilheira,
dos cavalos correndo no vulcão
assustando as estátuas solitárias
com seus olhos de pedra me espreitando;
da pele do meu peito que murchou;
do espelho sempre intacto em que se esconde
o pretérito mais do que imperfeito
da minha vida.
O tempo é a minha sina
aderida a meu sonho além da aurora,
a frágua do meu cântico futuro,
o tempo dentro do espelho.

O tempo é a sombra e a luz do pensamento.
Mas sobretudo é o que te faz pensar.
Por isso ele não passa e não se perde.
O tempo dura inteiro a teu dispor:
pele imóvel de mar em movimento,
feito de imagens, nuvens, flores, flamas
e cinzas — tudo coisas que te falam
na voz, que não se cala, dos silêncios.
Thiago de Mello, Num Campo de margaridas, 1986.
EL TIEMPO DENTRO DEL ESPEJO

El tiempo no existe, mi amor.
El tiempo es sólo una invención
de quien tiene miedo a ser eterno.
De quien no sabe que nada se acaba,
que todo lo que se vive permanece
como rescoldo de amor ardiendo en la memoria.
¿Pasa el tiempo? ¡Ojalá! El tiempo
permanece en mi interior, permanece cantando
o quemándome, pero yo soy quien canto
yo quien me quemo, el tiempo no hace nada
sin mí que lo permito en mi vida.
De mí depende, soy su materia,
abono y flor de la tierra de mi mente,
el tiempo es mi pecado original.
Para cumplirse, el tiempo necesita
de todo lo que hice y se aprovecha
de la joven dormida en el campo
ante mi dolor adolescente;
de los cabellos de mi madre tan joven,
tan valiente en la proa de la canoa;
de la lágrima en la mirada de mi amigo
diciéndome "que pena, voy a morir";
de mi hijo mayor preguntándome
"¿a dónde va el mar cuando es de noche?",
de tu mano en la mía dentro del agua;
del miedo que sentí en la cordillera,
de los caballos corriendo en el volcán
asustando a las solitarias estatuas
que me acechaban con sus ojos de piedra;
de la piel de mi pecho que se marchitó;
del espejo siempre intacto en que se esconde
el pretérito de lo más que imperfecto
de mi vida.
El tiempo es mi sino
adherido a mi sueño más allá de la aurora,
el tiempo dentro del espejo.

El tiempo es la sombra y la luz del pensamiento.
Pero sobre todo es lo que te hace pensar.
Por eso no pasa y no se pierde.
El tiempo permanece entero a tu disposición:
piel inmóvil de mar en movimiento,
hecho de imágenes, nubes, flores, llamas
y cenizas — todas las cosas que te hablan
en la voz, que no se calla, de los silencios.

Thiago de Mello, En un campo de margaritas, 1986.
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 30 de enero de 2016

“O SILÊNCIO DA FLORESTA” de Thiago de Mello (De Num Campo de Margaridas, 1986)

O SILÊNCIO DA FLORESTA

Tem consistência física,
espessamente doce,
o silêncio noturno da floresta.
Não é como o do vento e vastidão,
cujos dentes de neve
morderam a minha solidão.
Nem como o silêncio aterrador
(no seu âmago o tempo brilha imóvel)
do deserto chileno de Atacama,
onde, um entardecer,
estirado entre areia e pedras,
escutei cheio de assombro
o latir do meu próprio coração.

O silêncio da floresta é sonoro:
os cânticos dos pássaros da noite
fazem parte dele, nascem dele,
são a sua voz aconchegante.

Sozinho no centro da noite amazônica,
escuto o poder mágico do silêncio,
agora quando os pássaros
conversam com as estrelas,
e recito silenciosamente
o nome lindo da mulher que eu amo.
Thiago de Mello, Num campo de margaridas, 1986.
EL SILENCIO DE LA SELVA

Tiene consistencia física,
dulcemente espesa,
el silencio nocturno de la selva.
No es cómo el del viento y la inmensidad,
cuyos dientes de nieve
mordieron mi soledad.
Ni como el silencio aterrador
(el tiempo brilla inmóvil en su centro)
del desierto chileno de Atacama,
donde, un atardecer,
tumbado entre arena y piedras,
escuché lleno de asombro
el latir de mi propio corazón.

El silencio de la selva es sonoro:
los cantos de los pájaros de la
noche forman parte de él, nacen de él,
son su voz reconfortante.

Solo en el centro de la noche amazónica,
escucho el mágico poder del silencio,
ahora que los pájaros
conversan con las estrellas,
y recito silenciosamente
el lindo nombre de la mujer que amo.

Thiago de Mello, En un campo de margaritas, 1986.
(Versión de Pedro Casas Serra)

viernes, 29 de enero de 2016

“NUM CAMPO DE MARGARIDAS” de Thiago de Mello (De Num Campo de Margaridas, 1986)

NUM CAMPO DE MARGARIDAS
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.

Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamavas
que te chamavas baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
Thiago de Mello, Num campo de margaridas, 1986.

EN CAMPO DE MARGARITAS

Soñé que estabas durmiendo
en campo de margaritas
soñando que me llamabas,
que me llamabas bajito
para acostarme contigo
en campo de margaritas.
En el sueño oía mi nombre
naciendo como una estrella,
y cantando como un pájaro.

Pero yo no fui, mi amor,
¡que pena!, mas no podía,
porque yo estaba durmiendo
en campo de margaritas
soñando que te llamaba
que te llamaba bajito
y que en mi sueño llegabas,
que te acostabas conmigo
y me abrazabas suave
en campo de margaritas.

Thiago de Mello, En un campo de margaritas, 1986.
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 28 de enero de 2016

“JESUS COMIGO” de Thiago de Mello (De Num Campo de Margaridas, 1986)

JESUS COMIGO

Se de Deus me despedi,
Jesus foi quem me ficou.
Escondido, mas ficou.
Não é sempre que se esconde:
comigo está no que sou.

Faz de conta que não me vê
quando resvalo em desvãos,
mas sinto que ele se alegra
quando amanheço cantando.
Jesus finge que se esconde.
A verdade é que ele vem
comigo desde que venho.
Demora muito sem dar
sinal de vida. Demoro
tanto a mostrar precisão
que ele me seja. Aparece
inesperado no jeito
invisível que ele tem,
meio de anjo, de ser homem
como ele gosta de ser.

Sempre que chega, me chama
(prescindimos de palavras),
derrama estrelas no chão,
sai comigo pela mão,
vai me levando, para onde?
para onde vai me levando?,
não sei, só sei que com ele
me encontro comigo em paz,
no coração a esperança
de amar crescendo e, cantando,
sei que sou de novo criança.
Thiago de Mello, Num Campo de Margaridas, 1986.


JESÚS CONMIGO

Si de Dios me despedí,
Jesús fue quién me quedó.
Oculto, pero quedó.
No siempre se oculta así:
conmigo está en el que soy.
Hace ver que no me ve
cuando me hundo en tugurios,
pero noto que él se alegra
cuando amanezco cantando.
Jesús finge que se esconde.
Pero la verdad es que viene
conmigo desde que vengo.
Demora mucho sin dar
señal de vida. Demoro
en mostrar necesidad
de que venga. Él aparece
inesperado en la forma
imperceptible que él tiene,
medio ángel, de ser hombre
tal como a él le gusta ser.
Siempre que llega, me llama
(prescindimos de palabras),
vierte estrellas en la tierra,
va conmigo de la mano,
va llevándome, ¡hacia dónde?
¿hacia dónde va llevándome?,
no sé, mas sé que con él
me encuentro conmigo en paz,
en el alma la esperanza
de amar creciendo y, cantando,
sé que regreso a la infancia.
Thiago de Mllo, En un campo de margaritas, 1986.
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 27 de enero de 2016

“CONFIDÊNCIA PARA SER GRAVADA NA LÂMINA DA ÁGUA” de Thiago de Mello (De Num Campo de Margaridas, 1986)

CONFIDÊNCIA PARA SER GRAVADA NA LÂMINA DA ÁGUA

Caminho bem na minha solidão,
porque sei de mim mesmo o que perdi.
Não tenho mais precisão de mentir,
enfrento cara a cara o desamor
que mal me disfarcei. Não fui capaz
de ser o que sonhei, Fiquei aquém
das palavras ardentes que inventei
para que um dia triunfasse o amor.
Porque não dei com medo de perder,
o diamante mais puro no meu peito,
inútil de fulgor se consumiu.
Thiago de Mello, Num Campo de Margaridas, 1986.


CONFIDENCIA PARA SER GRABADA EN LA LÁMINA DEL AGUA

Camino bien por mi soledad,
porque sé lo que perdí de mí.
No tengo más necesidad de mentir,
enfrento cara a cara el desamor
que me cubrió mal. No fui capaz
de ser lo que soñé, Quedé a este lado
de las llameantes palabras que inventé
para que el amor triunfase un día.
Pues no lo di con miedo de perderlo,
en mi pecho el diamante más puro,
consumió inútil su fulgor.

Thiago de Mello, En un campo de margaritas, 1986.
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 25 de enero de 2016

“LEÃO” de Thiago de Mello (De Horóscopo para os que estão vivos, 1984)

LEÃO

(21 de Julho a 20 de Agosto)

Leão é fogo, sonhos cerrados,
a rosa de amor feita de brasa.
A vida te será amável,
companheiro que avanças
sob o sortilégio do Sol.

A menos que sejas um Leão
cujos dias se cumprem
em certos pedaços de chão como o do Nordeste
da minha pátria, sob o sol da injustiça.
Mas é desgraça demasiada
para tão pouco horóscopo.
De resto, trata o meu zodíaco da vida,
que não é precisamente o que tu levas,
companheiro camponês.
Contudo, algo te digo: não te submetas,
dentes de esmeralda já se cravam
na entranha do latifúndio.

Quanto a ti, Leão poderoso,
sei que não calculas os momentos que vives,
não calculas nem medes,
confias nos teus átomos,
te encantam as turquesas,
ostentas a gordura,
esbanjas as suavidades.
Tuas razões terás, e são das fortes,
porque se nutrem da alheia desventura.
Mas não posso ocultar-te
que vejo fluidos escuros
baixando sobre tua cabeça.
Enquanto caminhas confiante,
levado por tua extrema ganância,
Saturno está só te olhando
com seu olho implacável.

Te recomendo, para começar,
empinar um papagaio agora mesmo,
pelo menos uma tarde por mês,
e publicamente.
Queres que eu te diga tudo?
Haverá um instante de inverno
em que sete astros se unirão
à esquerda da tua indiferença.
Sete astros, sete ventos,
sete nebulosas verdes,
sete segredos reunidos
contra tua força de homem,
que sempre foste sozinho,
que apenas contas contigo.
Vais ver enfim como te odeia
a multidão que te adula.
Vê se descobres um irmão,
vê se ainda podes ser irmão,
talvez possas, ainda é tempo.
Depende do teu coração,
se é que ainda o levas.

E tu, doce mulher de Leão,
não abandones assim tanto a cozinha:
inventa um guisado,
com aipo, ternura e orégano,
em fogo bem brando,
para o teu homem.
Thiago de Mello, Horóscopo para os que estão vivos, 1984.


LEO

(21 de julio a 20 de agosto)

Leo es fuego, ocultos sueños,
la rosa del amor hecha brasa.
La vida te será amable,
compañero que avanzas
bajo el sortilegio del Sol.

A menos que seas un Leo
que celebre su aniversario
en ciertos lugares del Nordeste
de mi patria, bajo el sol de la injusticia.
Pero es demasiada desgracia
para tan corto horóscopo.
Por lo demás, mi horóscopo trata de la vida,
que no es precisamente lo que tú disfrutas,
compañero campesino.
Pero, algo te digo: no te sometas,
dientes de esmeralda se clavan ya
en las entrañas del latifundio.

En cuanto a ti, Leo poderoso,
sé que no calculas los momentos que vives,
no calculas ni mides,
confías en tus moléculas,
te encantan las turquesas,
exhibes gordura,
derrochas suavidades.
Tus razones tendrás, y son de las poderosas,
porque se nutren de la desventura ajena.
Pero no puedo ocultarte
que veo fluidos oscuros
descendiendo sobre tu cabeza.
Mientras caminas confiado,
a causa de tus exageradas ganancias,
Saturno está mirándote
con su ojo implacable.

Te recomiendo, para empezar,
hacer volar ahora mismo una cometa,
como mínimo una tarde al mes,
y públicamente.
¿Quieres que te lo diga todo?
Habrá un instante del invierno
en que siete astros se unirán
a la izquierda de tu indiferencia.
Siete astros, siete vientos,
siete nebulosas verdes,
siete secretos reunidos
contra tu fuerza de hombre,
que siempre estuviste solo,
que sólo cuentas contigo.
Verás finalmente como te odia
la multitud que te adula.
Mira si hallas un hermano,
mira si aún puedes ser hermano,
tal vez puedas, aún es tiempo.
Depende de tu corazón,
si es que aún lo tienes.

Y tú, dulce mujer Leo,
no abandones tanto la cocina:
inventa un guiso,
con apio, ternura y orégano,
a fuego muy lento,
para tu hombre.

Thiago de Mello, Horóscopo para vivos, 1984.
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 24 de enero de 2016

“VOLTO ARMADO DE AMOR” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

VOLTO ARMADO DE AMOR

Volto armado de amor
para trabalhar cantando
na construção da manhã.
Amor dá tudo o que tem.
Reparto a minha esperança
e planto a clara certeza
da vida nova que vem.

Um dia, a cordilheira em fogo,
quase calaram para sempre
o meu coração de companheiro.
Mas atravessei o incêndio
e continuo a cantar.

Ganhei sofrendo a certeza
de que o mundo não é só meu.
Mais que viver, o que importa
(antes que a vida apodreça)
é trabalhar na mudança
de que é preciso mudar.

Cada um na sua vez,
cada qual no seu lugar.

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.


REGRESO ARMADO DE AMOR

Regreso armado de amor
para trabajar cantando
en la obra del mañana.
El amor da cuanto tiene.
Distribuyo mi esperanza
y cultivo la certeza
de que viene nueva vida.

Un día, la sierra en llamas,
casi acallaron por siempre
mi alma de compañero.
Pero atravesé el incendio
y continúo cantando.

Gané en el dolor certeza
de que el mundo no era mío.
Más que vivir, lo que importa
(antes que la vida acabe)
es trabajar en el cambio
de que es preciso cambiar.

Cada uno en su momento,
cada uno en su lugar.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

“SONHO DOMADO” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

SONHO DOMADO

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
a frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello, Mormaço na Floresta, 1981.
SUEÑO DOMADO

Sé que es preciso soñar.

Campo sin rocío, seca
la frente de quien no sueña.

Quién no sueña el vuelo azul
pierde su poder de pájaro.

La realidad de la hierba
crece en sueño en el sereno
para no ser hierba sólo,
sino hierba que se sueña.

No venga el sueño de la hoja
si no crece introducido
en sueño que se hizo árbol.

Soñar, mas sin dejar nunca
que el sol del sueño se arrastre
por las campiñas del viento.

Es soñar, mas cabalgando
el sueño e inventando el suelo
para el sueño florecer.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 23 de enero de 2016

“QUANDO A VERDADE FOR FLAMA” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

QUANDO A VERDADE FOR FLAMA

As colunas da injustiça
sei que só vão desabar
quando o meu povo, sabendo
que existe, souber achar
dentro da vida o caminho
que leva à libertação.
Vai tardar, mas saberá
que esse caminho começa
na dor que acende uma estrela
no centro da servidão.
De quem já sabe, o dever
(luz repartida) é dizer.
Quando a verdade for flama
nos olhos da multidão,
o que em nós hoje é palavra
no povo vai ser ação.

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.


CUANDO LA VERDAD SEA LLAMA

Las columnas de injusticia
sé que sólo caerán
cuando mi pueblo, sabiendo
que existe, sepa encontrar
en la vida el recorrido
que lleva a la libertad.
Va a tardar, pero sabrá
que ese camino comienza
en el dolor que una estrella
enciende en la sumisión.
De quien ya sabe, el deber
(luz repartida) es hablar.
Cuando la verdad sea llama
en los ojos de la gente,
lo que palabra en nosotros
en el pueblo será acción.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

viernes, 22 de enero de 2016

“PARA REPARTIR COM TODOS” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

PARA REPARTIR COM TODOS

Com este canto te chamo,
porque depende de ti.
Quero encontrar um diamante,
sei que ele existe e onde está.
Não me acanho de pedir
ajuda: sei que sozinho
nunca vou poder achar.
Mas desde logo advirto:
para repartir com todos.

Traz a ternura que escondes
machucada no teu peito.

Eu levo um resto de infância
que meu coração guardou.
Vamos precisar de fachos
para as veredas da noite
que oculta e, às vezes, defende
o diamante.

Vamos juntos.
Traz toda a luz que tiveres,
não te esqueças do arco-íris
que escondeste no porão.
Eu ponho a minha poronga,
de uso na selva, é uma luz
que se aconchega na sombra.

Não vale desanimar
nem preferir os atalhos
sedutores que nos perdem,
para chegar mais depressa.

Vamos achar o diamante
para repartir com todos.
Mesmo com quem não quis vir
ajudar, falta de sonho.
Com quem preferiu ficar
sozinho bordando de ouro
o seu umbigo engelhado.
Mesmo com quem se fez cego
ou se encolheu na vergonha
de aparecer procurando.
Com quem foi indiferente
e zombou das nossas mãos
infatigados na busca.
Mas também com quem tem medo
do diamante e seu poder,
e até com quem desconfia
que ele exista mesmo.

E existe:
o diamante se constrói
quando o procuramos juntos
no meio da nossa vida
e cresce, límpido,cresce,
na intenção de repartir
o que chamamos de amor.

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1984.


PARA REPARTIR CON TODOS

Te llamo con este canto,
porque depende de ti.
Quiero encontrar un diamante,
sé que existe y dónde está.
No me avergüenza pedir
ayuda: sé que yo solo
nunca lo podré encontrar.
Pero desde ahora te digo:
para repartir con todos.

Trae la bondad que escondes
tan magullada en tu pecho.

Yo llevo un resto de infancia
que mi corazón guardó.
Precisaremos antorchas
para el camino nocturno
que oculta y, también, defiende
el diamante.

Vamos juntos.
Trae la luz que poseas,
no olvides el arco iris
que escondiste en la bodega.
Yo me uno con mi poronga
de la selva, es una luz
que se acurruca en la sombra.

No vale desanimarse
ni preferir los atajos
seductores que nos pierden,
para llegar más deprisa.

Vamos a hallar el diamante
para repartir con todos.
Aún con quien no quiso ir
a ayudar, falto de sueño.
Con quien prefirió quedarse
solo, bordando con oro
su apergaminado ombligo.
Aún con quien se hizo invidente
o se encogió por vergüenza
de aparecer intentándolo.
Con quien fue indiferente
y mofó de nuestras manos
incansables en la búsqueda.
Pero también con quien teme
del diamante y su poder,
y hasta con quien desconfía
incluso de que él exista.

Y existe:
el diamante se construye
cuando lo buscamos juntos
en medio de nuestra vida
y crece, límpido, crece,
si queremos repartir
lo que llamamos amor.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1984.
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 21 de enero de 2016

“MEMÓRIA DA ESPERANÇA” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

MEMÓRIA DA ESPERANÇA

Na fogueira do que faço
por amor me queimo inteiro.
Mas simultâneo renasço
para ser barro do sonho
e artesão do que serei.
Do tempo que me devora
me nasce a fome de ser.
Minha força vem da frágil
flor ferida que se entreabre
resgatada pelo orvalho
da vida que já vivi.
Qual a flama que darei
para acender o caminho
da criança que vai chegar?
Não sei. Mas sei que já dança,
canção de luz e de sombra,
na memória da esperança.

(Dia dos meus 55 anos, 30 de março de 1981.)

Thiago de Mello, Faz mormaço na floresta, 1981.


MEMORIA DE ESPERANZA

En la hoguera de lo que hago
por amor me quemo entero.
Mas a la vez yo renazco
para ser barro del sueño
y obrero del que seré.
Del tiempo que me devora
me nace el hambre de ser.
Mi ardor viene de la frágil
flor herida que se abre
salvada por el rocío
de la vida que viví.
¿Qué llama proveeré
para alumbrar el camino
del niño que va a llegar?
No sé. Pero sé que baila,
canción de luz y de sombra,
en memoria de esperanza.

(Día de mi 55 cumpleaños, 30 de marzo de 1981.)

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 20 de enero de 2016

“LIÇÃO DE ESCURIDÃO” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

LIÇÃO DE ESCURIDÃO

Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.

Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.

Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça,
a traição dos felinos não te vence.

Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.

De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.

Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.

(Barreirinha, 1981.)

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.

LECCIÓN DE OSCURIDAD

Caboclo, compañero mío de ribera,
contigo aprendo cada día un poco
sobre las ciencias de esta selva que nos une.

Contigo, que me enseñas el camino de los vientos,
me llevas a leer, en la lejanía del cielo,
los recados escritos por las nubes,
me avisas del peligro de los remolinos
y cuándo debo desviar de reojo la proa de la canoa
para pasar las olas de perfil.

Conoces el nombre y el secreto de todos los árboles,
el callado paraje que prefieren los peces
cuando las aguas empiezan a crecer.
Por su canto, el color de su pico, su forma de volar,
identificas a todos los pájaros de la selva.
Tú en solitario (Dios y yo, me dices),
atraviesas la noche en medio de la selva,
corajudo y paciente en el acecho de la caza,
no te vence la traición de los felinos.

Contigo aprendo las leyes de la oscuridad,
cuando me apuntas en la distante orilla,
viajando en la noche sin estrellas,
la boca (que aún no consigo ver) del Lago Grande
de donde me fui de pequeño y te dejé.

De nuevo en la tierra de mi infancia,
contigo también aprendo
que no tienes aún ojos para ver
las raíces de tu oscura vida,
no sabes cuáles son los dientes que te devoran
ni las lianas que te amarran a la servidumbre.

En tus ojos opacos
aprendo lo que nos distingue.
Ya compartes conmigo la ciencia y la paciencia.
Yo quiero compartir contigo la esperanza,
estrella vigilante en mi frente
y en tu mirar sólo un tizón
encharcado de engaño y cautiverio.

(Barreirinha, 1981.)

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 19 de enero de 2016

“JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI

A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.
Thiago de Mello, Mormaço na Floresta, 1981.


YA HACE TIEMPO QUE ESCOGÍ

La luz que me abrió los ojos
al mal de los desahuciados
y tocados de injusticia,
no me permite cerrarlos
nunca más, en tanto viva.
Aunque de asco o fatiga
me disponga a no ver más,
aunque el sobresalto cosa
mis ojos, yo ya no puedo
dejar de ver: la verdad
me tocó, con su cuchilla
de amor, el centro del ser.
No se trata de escoger
entre ceguera y traición.
Pero entre ver y hacer
como si nada yo vi
o hablar del dolor que veo
para ayudar a su fin,
ya hace tiempo que escogí.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 18 de enero de 2016

“FAZ MORMAÇO NA FLORESTA” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

FAZ MORMAÇO NA FLORESTA



Não quero
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.

De dádiva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce.

Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.

A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.

Firme a forquilha das ancas
a columna se recurva:
faz mormaço na floresta.

Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.

Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.

Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço.

Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria.

É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.

Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos.

Nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.

Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.

Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.

Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.

Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.


HACE BOCHORNO EN LA SELVA

No quiero
que cedas ante mí,
por dar amor.
ni que me concedas nada
tuyo, por dar amor.

Como dádiva, bastas tú
entera en la luz que de tu cuerpo nace.

Quiero sólo que tú quieras,
cantando de corazón,
venir conmigo a encender
la paz de las estrellas
que tu cuerpo y el mío
inventan abrazados.

Tomo entre mis manos
la tibia redondez del vientre
de muchacha tendida y sorbo
sin avidez la luz
que se derrama líquida
entre las paredes de los muslos. 
 
Firme la cruz de las caderas
la columna se inclina:
hace bochorno en la selva.

Escurre de la nuca el sudor
esencia de hierbabuena
y el suelo se encharca de fiesta.

El húmedo calor del cabello
nos envuelve sobre la arena.
Crecen cantos en la selva
cuando posas las ardientes alas
de tu boca en mi pecho:
estirado me florezco. 
 
Fuego ondulado, tu dorso
que desciende lentamente,
mientras crezco como un árbol.

Sombra ardiente que me guía
tu cabellera baila
en esparcida alegría.

Cuando muerdo la luz
de tu pecho es cuando tengo
lo que perdí sin tener.

Me vi cuando
antes de verte, abriste
el sol de tus cabellos.

Nunca ningún espejo
(ni el lago secreto
en que el miedo me espió)
me desveló, relámpago,
como el alzado temblor
de tus rodillas llamándome.

Nunca sé como estoy
(sólo sé que estoy contento)
cuando estoy contigo.

El amor me enseña a ser
la verdad que invento
para merecerte. 
 
Sólo llegas cuando estoy:
las estrellas me traes
para el cielo que te doy.

En la gloria de saber
que me recibes entero
olvido lo que es tener.
Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 17 de enero de 2016

“COM UM RIO” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

COM UM RIO

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.


CON UN RÍO

Ser capaz, como un río
que lleva él solo
la canoa que se cansa,
de servir de camino
para la esperanza.
Y de lavar de lo impoluto
la desgracia de la mancha,
como el río que lleva,
y lava.

Crecer para entregar
en la distancia callada
un poder de canción,
como el río descifra
el secreto de la tierra.

Si es tiempo de descender,
guardar el don de la fuerza
sin dejar de continuar.
Y hasta desaparecer
para, subterráneo ya,
aprender a resurgir
y cumplir, en pleno curso,
el oficio de querer.

Como un río, aceptar
esas olas imprevistas
hechas de aguas impuras
que hacen flotar la verdad
desde la profundidad.

Como un rio, que nace
de otros, saber seguir
existiendo junto a otros
y prolongándose en otros
y construir el encuentro
con las colosales aguas
del océano infinito.

En movimiento, cambiar,
pero sin dejar de ser
el mismo ser que cambia.
Como un rio.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 16 de enero de 2016

“AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.


LAS ENSEÑANZAS DE LA DUDA

Tuve un piso (ya hace tiempo)
Hecho todo de certezas
tan duras como baldosas.

Ahora (el tiempo es quien lo hizo)
tengo un camino de barro
humedecido de dudas.

Mas por él (despacio voy)
me crece honda la certeza
que el amor vale la pena.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 14 de enero de 2016

“AMOR MAIS QUE IMPERFEITO” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

AMOR MAIS QUE IMPERFEITO

Não do amor. De mim duvido.
Do jeito mais que imperfeito
que ainda tenho de amar.

Com frequência reconheço
a minha mão escondida
dentro da mão que recebe
a rosa de amor que dou.

Espiando o meu próprio olhar,
escondido atrás estou
dos olhos com que me vês.
Comigo mesmo reparto
o que pretende ser dádiva,
mas de mim não se desprende.

Por mais que me prolongue
no ser que me reparte,
de repente me sinto
o dono da alegria
que estremece a pele
e faz nascer luas
no corpo que abraço.

Não do amor. De mim duvido
quando no centro mais claro
da ternura que te invento
engasto um gosto de preço.
Mesmo sabendo que o prêmio
do amor é apenas amar.
Thiago de Mello, Mormaço na floresta, 1981.


AMOR MÁS QUE IMPERFECTO

No del amor. De mí dudo.
Del modo más que imperfecto
que tengo yo aún de amar.

A menudo reconozco
mi mano que está escondida
en la mano que recibe
la rosa de amor que doy.

Espiando mi mirar,
detrás escondido estoy
de los ojos con que ves.
Conmigo mismo reparto
lo que pretende ser dádiva,
mas de mí no se desprende.

Por mucho que me prolongue
en el ser que me reparte,
de repente yo me siento
el dueño de la alegría
que le estremece la piel
y hace que le nazcan lunas
al cuerpo con que me abrazo.

No del amor. De mí dudo
cuando en el centro más claro
de la ternura que invento
engasto un gusto de precio.
Aún conociendo que el premio
del amor es sólo amar.

Thiago de Mello, Bochorno en la Selva, 1981.
(Versión de Pedro Casas Serra)

“A MAGIA” de Thiago de Mello (De Mormaço na Floresta, 1984)

A MAGIA

Eu venho desse reino generoso,
onde os homens que nascem dos seus verdes
continuam cativos esquecidos
e contudo profundamente irmãos
das coisas poderosas, permanentes
como as águas, os ventos e a esperança.
Vem ver comigo o rio e as suas leis.
Vem aprender a ciência dos rebojos,
vem escutar os cânticos noturnos
no mágico silêncio do igapó
coberto por estrelas de esmeralda.

Thiago de Mello, Mormaço na Floresta, 1984.


LA MAGIA

Yo procedo de ese reino generoso,
donde los hombres nacidos de sus zonas verdes
continúan cautivos y olvidados
y sin embargo profundamente hermanados
con las cosas poderosas, permanentes
como las aguas, los vientos y la esperanza.
Ven a ver conmigo el río y sus leyes.
Ven a aprender la ciencia de los remolinos,
ven a escuchar los cánticos nocturnos
en el silencio mágico del bosque inundado
cubierto de estrellas esmeralda.

Thiago de Mello, Bochorno en la selva, 1984.
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 13 de enero de 2016

“OS FUNDAMENTOS” de Thiago de Mello (De Vento geral, 1960)

OS FUNDAMENTOS



A lenda, porque lenda, é verdadeira.

Assim direi que, mesmo transmitida
por minha boca — pântano de enganos —,
é de verdade a herança que te deixo.
Por verdadeira, cala sobre o tempo
das coisas que ela conta acontecidas,
das quais nenhum sinal há sobre o mundo.

Só declaram seu tempo coisas findas,
as que perderam fala, mas gaguejam
quando, por loucos, vamos despertá-las
tão tristes nos seus túmulos abertos.
Os olhos imutáveis da verdade
pairando sobre o tempo nos espiam.

Pena, porém, não reste sombra ou rastro
do que, em campo de lenda, floresceu.
Por mais que se andem léguas e se escavem
planícies e penhascos se derrubem,
não se encontra um vestígio, além dos dois
que, irmãos da lenda, intactos permanecem:
o homem e o mundo — sempre recusados
porque são manifestos, são os únicos
sinais que provam todas as verdades.

A lenda, porque lenda, é verdadeira.
Pois o próprio das lendas é a verdade,
como próprio do amor que não se acabe,
que seja fundamento de si mesmo
e fundamente a vida de quem ama.

Thiago de Mello, Vento geral, 1960.
LOS FUNDAMENTOS

La leyenda, por ser leyenda, es verdadera.

Así diré que, aún transmitida
por mi boca — pantano de engaños —,
es de verdad la herencia que te dejo.
Por verdadera, calla sobre el tiempo
de las cosas que ella cuenta ocurridas,
de las que ninguna señal queda en el mundo.

Sólo atestiguan su tiempo las cosas terminadas,
las que perdieron el habla, pero tartamudean
cuando, locos, vamos a despertarlas
tan tristes en sus abiertas tumbas.
Los inmutables ojos de la verdad
planeando sobre el tiemponos espían. 
 
Pena es, sin embargo, que no quede sombra o rastro
de lo que, en campo de leyenda, floreció.
Por más que se caminen leguas y se excaven
llanuras y se derriben peñascos,
no se encuentra vestigio, excepto los dos
que, hermanos de la leyenda, permanecen intactos:
el hombre y el mundo — siempre rechazados
porque son manifiestos, son las únicas
señales que prueban todas las verdades.

La leyenda, por ser leyenda, es verdadera.
Pues lo propio de las leyendas es la verdad,
como propio del amor es que no acabe,
que sea fundamento de sí mismo
y fundamente la vida de quien ama.

Thiago de Mello, Viento general, 1960.
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 12 de enero de 2016

“ARABESCO” de Thiago de Mello (De Vento geral, 1960)

ARABESCO

Já próximos escutamos o rumor
dos cavalos que correm pela treva.
Até agora, porém, nada aprendemos:
não conquistamos nem a paz dos loucos
nem a mudez das fragas solitárias.
E enquanto a noite enorme, que nos ronda,
estende as suas mãos para afagar-nos,
na areia das palavras desenhamos
o arabesco invisível desta mágoa:
— somos frágeis demais e não sabemos
sequer o que nos falta para sermos
completos como um deus — ou como um pássaro.
Thiago de Mello, Vento geral, 1960.


ARABESCO

Ya próximos escuchamos el rumor
de los caballos que trotan en la oscuridad.
Hasta ahora, sin embargo, nada aprendimos:
no conquistamos ni la paz de los locos
ni el silencio de los riscos solitarios.
Y mientras la noche enorme, que nos ronda,
extiende sus manos para acariciarnos,
dibujamos en la arena de las palabras
el arabesco invisible de esta pena:
— somos demasiado frágiles y ni siquiera
sabemos lo que necesitamos para ser
completos como un dios — o como un pájaro.

Thiago de Mello, Viento general, 1960.
(Versión de Pedro Casas Serra)