jueves, 30 de octubre de 2014

"Lágrima", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Denso, mas transparente
Como uma lágrima...
Que me dera
Um poema assim!
Mas...
Este rascar da pena! Esse
Ringir das articulações... Não ouves?!
Ai do poema
Que assim escreve a mão infiel
Enquanto - em silêncio - a pobre alma
Pacientemente espera.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



LÁGRIMA

Denso, pero transparente
Como una lágrima...
¡Quién me diera
Un poema así!
Pero...
¡Este rascar de la pena! Ese
Crujir de las bisagras... ¿No los oyes?
Ay del poema
Que así escribe la mano infiel
Mientras -en silencio- la pobre alma
Pacientemente espera.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

"Essa lembrança que nos vem", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbita
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança... mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! Tão perdida
que nem se possa saber mais de quem!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



ESE RECUERDO QUE NOS LLEGA

Ese recuerdo que nos llega a veces...
hoja súbita
que cae
abriendo en la memoria la flor silenciosa
de mil y un pétalos concéntricos...
Ese recuerdo... pero ¿de donde? ¿de quién?
Ese recuerdo tal vez ni sea nuestro,
sino de alguien que, pensando en nosotros, sólo puede
mandar un eco de su pensamiento
en ese mensaje perdido por los cielos...
¡Ay! ¡Tan perdido
que ni se puede saber de quién es!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 29 de octubre de 2014

"Do ideal", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Como são belas
indizivelmente belas
essas estátuas mutiladas...
Porque nós mesmos lhes esculpimos
- com a matéria invisível do ar -
o gesto de um braço... uma cabeça anelada... um seio...
tudo o que lhes falta!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)


DEL IDEAL

Que bellas son
inexplicablemente bellas
esas estatuas mutiladas...
Porque nosotros mismos las esculpimos
-con la materia invisible del aire-
el gesto de un brazo... una cabeza ausente... un seno...
¡todo lo que les falta!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 28 de octubre de 2014

"Fantástica", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Ampla se estende a erma planície nua.
Cobre-a o funéreo manto do luar
E cada sombra no chão se recorta
Com nitidez de paisagem lunar.

Mas que imobilidade singular
Que as coisas têm! E que nudez! Aflito,
O ouvido indaga, espera... E nem um grito
Vem o imóvel silêncio apunhalar.

Mostra-se a Lua. A sua enorme face
Lembra um disco de prata formidando
Que um Titã aos Céus arremessasse;

Vem branca, branca, de um palor que pasma.
E enquanto vai a Lua transmontando
Uiva lugubremente um cão fantasma.





FANTÁSTICA

Amplia se extiende la yerma llanura desnuda.
La cubre el funéreo manto del luar
Y cada sombra en el suelo se recorta
Con nitidez de paisaje lunar.

¡Pero que inmovilidad singular
Tienen las cosas! ¡Y qué desnudez! Afligido,
El oído indaga, espera... Y ni un grito
Viene el inmóvil silencio a apuñalar.

Se muestra la Luna. Su enorme faz
Recuerda un formidable disco de plata
Que un Titán a los Cielos arrojase;

Viene blanca, blanca, de una palidez que pasma.
Y mientras la Luna va ascendiendo
Aúlla lúgubremente un perro fantasma.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 27 de octubre de 2014

"Poema", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Tão nossa
e tão além
- a que mundo pertences, Greta Garbo?
Oh, desde os laranjais em flor:
Ana... Cristina... Margarida... tantas
e tantas... como te amei... Visão!
As outras
agora
é que me parecem irreais
- sombras que se esvaíram numa tela...
Tu? Não!
Instante e eternidade,
o teu sorriso é imemorial como as Pirâmides
e puro como a flor que abriu na manhã de hoje!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



POEMA

Tan nuestra
y tan ajena
-¿a que mundo pertenencias, Greta Garbo?
Oh, desde los naranjos en flor:
Ana... Cristina... Margarita... tantas
y tantas... como te amé... ¡Visión!
Las otras
ahora
son las que me parecen irreales
-sombras que se desvanecen en una pantalla...
¿Tú? ¡No!
Instante y eternidad,
tu sonrisa es inmemorial como las Pirámides
¡y pura como la flor que abrió esta mañana!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 26 de octubre de 2014

"Eu escrevi um poema triste", Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



YO ESCRIBÍ UN POEMA TRISTE

Yo escribí un poema triste
Y bello, sólo por su tristeza.
No viene de ti esa tristeza
Sino de lo mudable del Tiempo,
Que unas veces nos trae esperanzas
Y otras nos causa incertidumbre...
Ni le importa, al viejo Tiempo,
Que seas fiel o infiel...
Me quedo, junto a la corriente,
Mirando las horas tan breves...
Y con las cartas que me escribes
¡Hago barcos de papel!

Mario Quintana
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 25 de octubre de 2014

"Matinal", Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Entra o sol, gato amarelo, e fica
à minha espreita, no tapete claro.
Antes de abrir os olhos, sei que o dia
virá olhar-me por detrás das árvores.

Ah! sentir-me ainda vivo sobre a face da Terra
enquanto a vida me devora...
Me espreguiço, entredurmo... O anjo da luz espera-me
Como alguém que vigiasse uma crisálida.

Pé ante pé, do leito, aproxima-se um verso
para a canção de despertar:
os ritmos do tráfego vibram como uma cigarra,

a tua voz nas minhas veias corre,
e alguns pedaços coloridos do meu sonho
devem andar por esse ar, perdidos...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



MATINAL

Entra el sol, gato amarillo, y queda
a mi acecho, sobre la alfombra clara.
Antes de abrir los ojos, sé que el día
vendrá a mirarme por detrás de los árboles.

¡Ah! sentirme aún vivo sobre la faz de la Tierra
mientras la vida me devora...
Me desperezo, medio dormido... El ángel de la luz me espera
Cómo quien vigilara una crisálida.

Paso a paso, del lecho, se aproxima un verso
para la canción de despertar:
los ritmos del tráfico vibran como una cigarra,

tu voz en mis venas corre,
y algunos pedazos coloreados de mi sueño
deben de andar por ese aire, perdidos...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

viernes, 24 de octubre de 2014

"Ah! Os relógios", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia em for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais um necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



¡AH! LOS RELOJES

Amigos, no miréis a los relojes
cuando un día en el ser de vuestras vidas
en fútiles problemas tan perdidas
que hasta parecen más un necrológico...

Porque el tiempo invención es de la muerte:
no conoce la vida -verdadera-
en que basta un momento de poesía
para darnos la eternidad entera.

Entera, si, porque esa vida eterna
solamente por sí es dividida:
no toca, a cada cuál, una porción.

Los Ángeles se miran sorprendidos
si alguien -al llegar a la otra vida-
les pregunta quizá que hora es...

Mario Quintana
(versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 23 de octubre de 2014

"As civilizações", Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

As civilizações
As civilizações desabam
por implosão...
Depois,
como um filme passando às avessas
elas se erguem em câmera lenta do chão.
Não há de ser nada...
Os arqueólogos esperam, pacientemente,
A sua ocasião!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



LAS CIVILIZACIONES

Las civilizaciones caen
por implosión...
Después,
como una película pasada al revés
se levantan del suelo a cámara lenta.
No tiene importancia...
¡Los arqueólogos esperan, pacientemente,
Su ocasión!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 22 de octubre de 2014

"Estatística", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

As crianças,
sem um tiro aliás,
e isso é que tornava o caso ainda mais espantoso,
morriam mais do que índios nos filmes norte-americanos.
E quando a gente acaso perguntava,
para se mostrar atencioso:
"Quantos filhos a senhota tem, Comadre?"
a comadre respondia, com ternura:
"Eu tenho quatro filhos e nove anjinhos..."

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989
)


ESTADÍSTICA

Los niños,
sin un tiro además,
y eso hacía el asunto aún más asombroso,
morían más que los indios en las películas norteamericanas.
Y cuando la gente preguntaba,
quizás para mostrar su interés:
"¿Cuántos hijos tiene, señora comadre?"
la comadre respondía, con ternura:
"Yo tengo cuatro hijos y nueve angelitos..."

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 21 de octubre de 2014

"O umbigo", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

O teu querido umbigo
Doce nunho do meu beijo
Capital do meu Desejo
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo,
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



EL OMBLIGO

Tu querido ombligo
Dulce nido de mi beso
Capital de mi Deseo
En sus pliegues misteriosos,
Oigo la voz de la naturaleza
En un eco dulce y profundo,
No es sólo el centro de un cuerpo,
¡Es también el centro del mundo!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 19 de octubre de 2014

"O siléncio", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres: peixes abrindo e fechando a boca num aquário
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquubancadas dos estádios...
Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso...
Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



EL SILENCIO

El mundo, a veces, me resulta tan falto de sentido
Como una película que hubiera perdido de golpe el sonido.
Veo hombres, mujeres: peces abriendo y cerrando la boca en un acuario
O multitudes: monos saltando en los gradas de los estadios...
Pero lo más triste es esa tristeza tan coloreada de los carnavales
Como el maquillaje de las viejas prostitutas haciendo la calle.
A veces pienso que ya fui un día rey, inmóvil en su estrado,
Obligado a seguir mirando
Interminables desfiles, torneos, procesiones, todo eso...
¡Oh! ¡Decididamente mi reino no es de este mundo!
Ni del otro...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

"Verão", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Quando os sapatos ringem
- quem diria?
São os teus pés que estão cantando!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



VERANO

Cuando los zapatos resoplan
-¿quién lo diría?
¡Son tus pies que están cantando!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 18 de octubre de 2014

"À maneira de Jacques Prévert", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Um homem de visão com uma mulher de vison
Um homem público e uma mulher pública
A poluição diurna e as poluções noturnas
O rabo do olho num rabo de saia
Um gato escaldado e um cachorro-quente
Um tigre de Bengala e um gato de guarda-chuva

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



A LA MANERA DE JACQUES PRÉVERT

Un hombre de visión con una mujer de visón
Un hombre público y una mujer pública
La polución diurna y las poluciones nocturnas
El extremo del ojo en un extremo de falda
Un gato escaldado y un perrito caliente
Un tigre de Bengala* y un gato de apoyo

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

* En portugués, “bengala” también puede significar bastón.

viernes, 17 de octubre de 2014

"Quem ama inventa", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz a gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



QUIEN AMA INVENTA

Quien ama inventa las cosas que ama...
Tal vez llegaste cuando te soñaba.
¡Entonces de repente se encendió la llama!
Era la brasa dormida que despertaba...
Y era un revuelo sobre las ruinas,
En el aire atónito repicaban campanas,
Tañidas por unos ángeles peregrinos
Cuyo don es hacer resucitar...
¿Un ritmo divino? ¡Oh! Simplemente
El palpitar de nuestros corazones
Batiendo juntos y alegremente,
O solos, en un ritmo tristón...
¡Oh! mi pobre, mi gran amor lejano,
No sabes tú el bien que hace a la gente
Haber soñado... ¡y haber vivido el sueño!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 15 de octubre de 2014

"Inscrição para um portão de cemitério", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Na mesma padre se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



INSCRIPCIÓN PARA UN PÓRTICO DE CEMENTERIO

En la misma piedra aparecen,
tal como entiende la gente,
Una estrella -para cuando se nace,
Una cruz -para cuando se muere.
Pero cuantos aquí reposan
Han de corregirnos así:
"¡Pónganme la cruz al principio...
Y la luz de la estrella al final!"

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

"Não basta saber amar...", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Para Milton Quintana

Neste mundo, que tanto mal encerra,
não basta saber amar,
mas também saber odiar,
não só servir a paz, mas também ir para a guerra.
Seguiremos assim o próprio exemplo
de Jesus, que tanto amor pregou na Terra...,
quando Ele,
num ímpeto de cólera,
a relhaço expolsou os vendilhões do templo!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



NO BASTA SABER AMAR...

Para Milton Quintana

En este mundo, que tanto mal encierra,
no basta saber amar,
sino también saber odiar,
no sólo servir a la paz, sino también ir a la guerra.
Así seguiremos el ejemplo
de Jesús, que tanto amor predicó en la Tierra...,
cuando Él,
en un ímpetu de cólera,
¡expulsó a trallazos a los vendedores del templo!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 14 de octubre de 2014

"Dedicatória" (A Cor do Invisível, 1989)

Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?
Quem foi que disse que eu escrevo para o bas-fond?
Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você, que está com este jornal da mão...
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia,
O resto não passa de crônica policial - social - política.
E os jornais sempre proclamam que "a situação é crítica"!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria,
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são quotidianas como o pão nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



DEDICATORIA

¿Quién dijo que yo escribo paras las élites?
¿Quién dijo que yo escribo para los bajos fondos?
Yo escribo para la María de cada día.
Yo escribo para el Juan cara de pan.
Para ti, que tienes este diario en la mano...
Y de pronto descubres que la única novedad es la poesía,
El resto no pasa de ser crónica politica-social-polícial.
¡Y los periódicos siempre proclaman que "la situación es crítica"!
Mas lo que yo escribo es para Juan y María,
¡Que casi siempre están en situación crítica!
Y por eso mis palabras son cotidianas como el pan nuestro de cada día
Y mi poesía es natural y simple como el agua bebida en el cuenco de la mano.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 13 de octubre de 2014

"O futuro", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

No bola de cristal procuro o meu futuro:
futuro tão brilhante que aos olhos me faz mal...
Não, não esse brilho fácil das girándolas,
mas uma súbita, silenciosa explosão de cores
- prenúncio da total
subversão!-
até que então o Grande Mágico
regendo o novo Caos
(... e mesmo porque nada pode ser destruído...)
até que o Grande Mágico
- afinal -
com todos os espantosos subprodutos da última Bomba H
recomponha o milagre de cada indivíduo!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



EL FUTURO

En la bola de cristal busco mi futuro:
futuro tan brillante que me hace daño a los ojos...
No, no ese brillo fácil de las girándulas,
sino una súbita, silenciosa explosión de colores
-¡preaviso de la total
subversión!-
hasta que entonces el Gran Mago
gobernando el nuevo Caos
(... y también porque nada puede ser destruido...)
hasta que el Gran Mago
-finalmente-
¡con todos los asombrosos subproductos de la última bomba H
recomponga el milagro de cada individuo!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 12 de octubre de 2014

"Magias", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar por longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fitam, obstinados.
Porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente:
Poderias pegá-los em flagrante.

Não, não olhes nunca!
O melhor é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido...
Dessas que a gente inventava para enganar a solidão dos caminhos sem lua.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



MAGIAS

Los antiguos retratos de pared
No consiguen quedar por largo tiempo abstractos.

A veces sus ojos te miran, obstinados.
Porque ellos nunca se deshumanizan del todo.

Jamás te gires hacia atrás de pronto:
Podrías cogerlos in fraganti.

¡No, no mires nunca!
Es mejor que les cantes canciones locas y sin motivo...
Sin motivo y sin sentido...
De esas que la gente inventaba para engañar la soledad de los caminos sin luna.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 11 de octubre de 2014

"A mudança", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

A mudançaA alegre, a festiva agitação das panelas e tachos
A inútil zanga dos velhos armários de mogno, solenes,
Achando tudo aquilo uma grande palhaçada...
As xícaras e pires fazendo tlin-tlin-tlin-tlin
As gaiolas dos passarinhos cantando em coro com os próprios passarinhos
Oh! a alegria das coisas com aquela mudança
Para onde? Não importa! Desde que não seja
Este eterno mesmo lugar!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



LA MUDANZA

La alegre, la festiva agitación de ollas y cazuelas
La inútil ansia de los viejos armarios de caoba, solemnes,
Encontrando todo aquello una gran pallasada...
Las tazas y platitos haciendo tilín-tilín-tilín-tilín
Las jaulas de los pajarillos cantando a coro con los propios pajarillos
¡Oh! la alegría de las cosas con aquella mudanza
¿Para ir a dónde? ¡No importa! ¡Siempre que no sea
Este mismo eterno lugar!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

viernes, 10 de octubre de 2014

"Jardim interior", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muro de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardin é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)


JARDÍN INTERIOR

Todos los jardines deberían ser cerrados,
con altos muro de color ceniza muy pálido,
donde una fuente
pudiera cantar
sola
entre el rojo de los claveles.
Lo que mata a un jardín no es solamente
algo de ausencia
o abandono...
Lo que mata a un jardín es ese mirar vacío
de quien por ellos pasa indiferente.

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 9 de octubre de 2014

"Carta", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Eu queria trazer-te uma imagem qualquer
para os teus anos...
oh! mas apenas este vazio doloroso
de uma sala de espera onde não está ninguém...
É que,
longe de ti, de tuas mãos milagrosas
de onde os meus versos voavam - pássaros de luz
a que deste vida com o teu calor -
é que longe de ti eu me sinto perdido
- sabes? -
desertamente perdido de mim!
Em vão procuro...
mas só vejo de bom, mas só vejo de puro
este céu que eu avisto da minha janela.
E assim, querida,
eu te mando este céu, todo este céu de Porto Alegre
e aquela
nuvezinha
que está sonhando, agora, em pleno azul!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



CARTA

Yo quería mandarte una imagen cualquiera
para tu cumpleaños...
¡oh! pero sólo es este vacío doloroso
de una sala de espera donde no hay nadie...
Es que,
lejos de ti, de tus milagrosas manos
desde donde mis versos volaban -pájaros de luz
a quienes diste vida con tu calor-
es que lejos de ti yo me siento perdido
-¿sabes?-
¡desiertamente perdido de mí!
Vanamente busco...
pero sólo veo de bueno, pero sólo veo de puro
este cielo que yo avisto desde mi ventana.
Y así, querida,
yo te mando este cielo, todo este cielo de Porto Alegre
y aquella
nubecilla
¡que está soñando, ahora, en pleno azul!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 7 de octubre de 2014

"As estrelas", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o Céu!... Pudesse eu ir colh-las...
Diria alguma se me tens amor.

Estrelas altas! Que se importam elas?
Tão longe estão... Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...

Porém meu coração quase parava,
Lá foram voando as esperanças minhas
Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,

Deus a guie! do céu se despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)


LAS ESTRELLAS

Poco a poco se fueron abriendo las estrellas...
¡Lindo campo de margaritas en flor!
¡Tan alto el Cielo!... Si pudiera cogerlas...
Alguna me diría si me tienes amor.

¡Altas estrellas! ¡Qué les importa a ellas!
Están tan lejos... Tan lejos de este mundo...
Trémulo grupo de distantes velas
Ancladas en el cielo azul profundo...

Pero mi corazón casi paraba,
Volando fueron las esperanzas mías
Cuando una, de entre aquellas estrellitas,

¡La guió Dios! del cielo se cayó...
Seguro era el amor que me tenías
¡Que repentinamente se acabó!

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

"Porto parado", de Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)

No movimento
lento
das barcaças
amarradas
o dia,
sonolento
vai inventando as variações das nuvens...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)



PUERTO PARADO

En el movimiento
lento
de las barcazas
amarradas
el día,
soñoliento
va inventando las variaciones de las nubes...

Mario Quintana (A Cor do Invisível, 1989)
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 6 de octubre de 2014

"A imagem perdida", de Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)

Para Sergio Faraco

Como essas coisas que não valem nada
E parecem guardadas sem motivo
(Alguma folha seca... uma taça quebrada)
Eu só tenho um valor estimativo...

Nos olhos que me querem é que eu vivo
Esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
Refletirá meu vulto vago e esquivo...

E cerraram-se os olhos das amadas,
O meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
Nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...

E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
Muitas vezes parei... e, nos espelhos,
Procura em vão, minha perdida imagem!

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)


LA IMAGEN PERDIDA

Para Sergio Faraco

Como esas cosas que no valen nada
Y parecen guardadas sin motivo
(Alguna hoja seca... una copa agrietada)
Sólo tengo un valor estimativo...

Es en ojos que me aman donde vivo
Esta existencia efímera, encantada...
Un día apagarán y, entonces, nada
Reflejará mi rostro libre, esquivo...

Y cerrarán sus ojos las amadas,
Huyó mi nombre de sus labios rojos,
Nunca más, de un amigo, el caluroso abrazo...

Y, sin embargo, en medio de tan largo viaje,
Muchas veces paré... y, en los espejos,
¡Busqué en vano, mi perdida imagen!

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 5 de octubre de 2014

" O velho poeta", de Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)

Velho? Mas como?! Se ele nasceu na manhã de hoje...
Não sabe o que fazer do mundo,
Das suas mãos,
De si mesmo,
Do seu sempre primeiro e penúltimo amor...
E - quem diria? - o que ele mais teme na vida é o seu próximo poema!
Porque está sempre perigando sair tão comovedoramente ruinzinho
Como os primeiros poemas que ele escreveu menino...

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)



EL VIEJO POETA

¿Viejo? ¿Pero cómo? Si nació esta misma mañana...
No sabe que hacer con el mundo,
Con sus manos,
Consigo mismo,
Con su siempre primer y penúltimo amor...
Y -¿quién lo diría?- ¡lo que más teme en la vida es su próximo poema!
Porque siempre está peligrando salir tan conmovedoramente indigno
Como los primeros poemas que escribió de niño...

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 4 de octubre de 2014

"Poeminha sentimental", de Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas va lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)



POEMITA SENTIMENTAL

Mi amor, mi amor, María
Es como un hilo telegráfico en la carretera
donde van a posarse las golondrinas...
De vez en cuando llega una
Y canta
(No sé si las golondrinas cantan, pero ¡qué más da!)
Canta y se va aunque
Otra, ni eso,
Apenas llega, ya se va
¡Aunque la última que pasó
Se limitó a hacer gogó
En mi pobre hilo de vida!
Sin embargo, María, mi amor siempre es el mismo:
Son las golondrinas las que cambian.

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)
(Versión de Pedro Casas Serra)

viernes, 3 de octubre de 2014

"O gato", de Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)

O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fita-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com Terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)



EL GATO

El gato llega a la puerta del cuarto donde escribo.
Medio se para... duda... continúa...

Me mira.
Nos miramos.

Los ojos en los ojos...
¡Casi con Terror!

Como dos criaturas insociables y solitarias
Que estuvieran creadas cada una por un Dios diferente.

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 2 de octubre de 2014

"Primeiro poema de abril", de Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)

Para Evelyn Berg

Vem vindo o abril tão belo em sua barca de ouro!
Um copo de cristal inventa as cores todas do arco-íris.
Eu procuro
As moedinhas de luz perdidas na grama dos teus olhos verdes.

E até onde, me diz,
Até onde irá dar essa veiazinha aqui?
(Abril é bom para estudar Corpografia!)

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)


PRIMER POEMA DE ABRIL

Para Evelyn Berg

¡El bello abril va llegando en su barca de oro!
Un vaso de cristal crea todos los colores del arco iris.
Yo busco
Las moneditas de luz perdidas en la grama de tus ojos verdes.

Y a dónde, me digo,
¿A dónde irá a dar este filoncito de aquí?
(¡Abril es bueno para estudiar corpografia!)

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 1 de octubre de 2014

"Quem disse que eu me mudei?", de Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)

Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)



¿QUIÉN DIJO QUE YO ME MUDÉ?

No importa que la hayan demolido:
La gente continúa viviendo en la vieja casa en que nació.

Mario Quintana ("Preparativos de Viagem", 1987)
(Versión de Pedro Casas Serra)