jueves, 7 de julio de 2016

“SEM CORPO NENHUM” de Cecilia Meireles (De Retrato Natural, 1949)

SEM CORPO NENHUM

Sem corpo nenhum,
como te hei de amar?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma escolheste
esse doce mal!

Sem palavra alguma,
como o hei de saber?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma desejas
o que não se vê!

Nenhuma esperança
me dás, nem te dou:
— Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!

Cecilia Meireles (In Poemas, 1951)


SIN CUERPO NINGUNO

Sin cuerpo ninguno,
¿cómo te he de amar?
— ¡Alma mía, alma,
tú misma escogiste
ese dulce mal!

Sin palabra alguna,
¿cómo he de saber?
— ¡Alma mía, alma,
tú misma deseas
lo que no se ve!

Ninguna esperanza
me das, ni te doy:
— ¡Alma mía, alma,
he ahí la conquista
del mayor amor!

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)

miércoles, 6 de julio de 2016

“RECADO AOS AMIGOS DISTANTES” de Cecilia Meireles (De Retrato Natural, 1949)

RECADO AOS AMIGOS DISTANTES

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecilia Meireles (In Poemas, 1951)


MENSAJE A LOS AMIGOS DISTANTES

Mis compañeros amados,
no os espero ni os reclamo:
porque voy para otros lados.
Pero lo cierto es que os amo.

No siempre los que están cerca
hacen mejor compañía.
Aun con el sol encubierto,
todos saben cuando es día.

Por vuestros campos inmensos,
voy cortando mis atajos.
Es por vuestro amor que pienso
y me doy tantos trabajos.

No condenéis, de momento,
mi revoltosa manera.
Para liberarme tanto,
quedo vuestra prisionera.

Por más que lejos parezca,
viajáis en mi recuerdo,
viajáis en mi cabeza,
delimitáis mi Esperanza.

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 5 de julio de 2016

“EPITÁFIO” de Cecilia Meireles (De Retrato Natural, 1949)

EPITÁFIO

Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.

Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!

E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.

Cecilia Meireles (In Poemas,1942-1959)


EPITAFIO

Aún corren lágrimas por tus
grises, tristes cabellos,
en tierra vana desintegrados,
en pequeñas flores tornados.

Todos los días estás viva,
en la soledad pensativa,
¡oh simple alma grave y pura,
libre de cualquier sepultura!

Y no soy más que la pequeña
que tu antigua suerte enseña.
Y caminamos, de la mano
por las playas de la madrugada.

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 4 de julio de 2016

“PÁSSARO” de Cecilia Meireles (De Retrato Natural, 1949)

PÁSSARO

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

Cecilia Meireles (In Retrato Natural, 1949)


PÁJARO

Aquello que ayer cantaba
ya no canta.
Murió de flor en la boca:
no de espina en la garganta.

Amaba el agua sin sed,
y, en verdad,
teniendo alas, miraba el tiempo,
libre de necesidad.

No fue deseo o imprudencia:
no fue nada.
Y el día toca en silencio
la desventura causada.

Si acaso eso es desventura:
irse la vida
sobre una rosa tan bella,
por una tenue herida.

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 3 de julio de 2016

“PRELÚDIO” de Cecilia Meireles (De Mar Absoluto, 1945)

PRELÚDIO

Que tempo seria,
ó sangue, ó flor,
em que se amaria
de amor.

Pérolas de espuma,
de espuma e sal.
Nunca mais nenhuma
igual.

Era mar e lua:
minha voz, mar.
Mas a tua... a tua,
– luar!

Coroa divina
que a própria luz
nunca mais tão fina
produz.

Que tempo seria,
ó sangue, ó flor,
em que se amaria
de amor!

Cecilia Meireles (in Mar Absoluto, 1945)


PRELUDIO

En qué tiempo sería,
oh sangre, oh flor,
en que se amaría
de amor.

Perlas de espuma,
de espuma y sal.
Nunca alguna
igual.

Era mar y luna:
mi voz, mar.
Mas la tuya... la tuya,
– ¡luar!

Corona divina
que la propia luz
ninguna tan fina
causa.

¡En qué tiempo sería,
oh sangre, oh flor,
en que se amaría
de amor!

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 2 de julio de 2016

“MULHER AO ESPELHO” de Cecilia Meireles (De Mar Absoluto, 1945)

MULHER AO ESPELHO

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

Cecilia Meireles (in Mar Absoluto, 1945)


MUJER AL ESPEJO

Hoy, que sea ésta o aquélla,
poco me importa.
Quiero sólo parecer bella,
pues, sea cuál sea, estoy muerta.

Ya fui rubia, ya fui morena,
Ya fui Margarita y Beatriz,
Ya fui Maria y Magdalena.
Mas no pude ser cómo quise.

¿Qué más da, este color fingido
de mi cabello, y de mi rostro,
si todo es tinta: el mundo, la vida,
la alegría, el disgusto?

Por fuera, seré como quiera
la moda, que me va matando.
Que se me lleven piel y calavera
a la nada, no me importa cuando.

Mas quien vio, tan lacerados,
sus ojos, brazos y sueños,
y murió por sus pecados,
hablará con Dios.

Hablará, cubierta de luces,
del alto peinado al azorado tobillo.
Porque unos expiran sobre cruces,
otros, buscándose en el espejo.

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)

viernes, 1 de julio de 2016

“MAR ABSOLUTO” de Cecilia Meireles (De Mar Absoluto, 1945)

MAR ABSOLUTO

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Cecilia Meireles (In Mar Absoluto, 1945)


MAR ABSOLUTO

Desde siempre existió el mar,
Y pretéritas multitudes me empujaban
como a un barco olvidado.

Ahora recuerdo que hablaban
de la revuelta de los vientos,
de velas, de cuerdas, de hierros,
de sirenas varadas en la costa.

Y el rostro de mis abuelos viajaba
por los mares de Oriente, con sus corales y perlas,
y por los mares del Norte, duros de hielo.

De esta forma, es a mí a quien hablan,
soy yo quien debo ir.
Porque no hay nadie,
tan decidido a amar y a obedecer a sus muertos.

Y tengo que buscar a mis remotos tíos ahogados.
Tengo que llevarles redes de rezos,
campos convertidos en velas,
barcas sobrenaturales
con peces mensajeros
y cantos náuticos.

Y quedo absorta,
de repente despierta en playas tumultuosas.
Y me apuran, y no me dejan siquiera mirar la rosa de los vientos.
"¡Adelante! ¡Por el ancho mar!
¡Liberando el cuerpo del aprendizaje de la arena!
¡Al mar! - ¡Humana disciplina para la empresa de la vida!"
Mi sangre se entiende con esas voces poderosas.
La solidez de la tierra, monótona,
nos parece débil ilusión.
Queremos la gran ilusión del mar,
multiplicada en sus redes de peligro.

Queremos su soledad robusta,
una soledad por doquier,
una ausencia humana que se opone al mezquino hormiguear del mundo,
y hace sólido al tiempo, libre de las luchas de cada día.

El heróico aliento del mar tiene su polo secreto,
que los hombres sienten, seducidos y miedosos.

El mar es sólo mar, desprovisto de apegos,
muriéndose y reviviendo,
corriendo como un toro azul por su propia sombra,
y arremetiendo con bravura contra nadie,
y después siendo la pura sombra de sí mismo,
por sí mismo vencido. Es su gran ejercicio.

No precisa del destino seguro de la tierra,
él que, a la vez,
es el bailarín y su baile.

Tiene un reino de metamorfosis, para la experiencia:
su cuerpo es su propio juego,
y su eternidad lúdica
no sólo gratuita: sino perfecta.

Baraja sus grandes contrastes:
caballo, épico, anémona suave,
se entrega a todos, desprecia ritmo
jardines, estrellas, colas, antenas, ojos, pero es deshojado,
ciego, desnudo, dueño sólo de sí,
de su inequívoca grandeza despojada.

No se olvida que es agua, al desplegar sus visiones:
agua de todas las posibilidades,
pero sin flaqueza ninguna.

Y como agua me habla.
Me arroja caracolas, como recuerdos de su voz,
y estrellas erizadas, como invitación a mi destino.

No me llama para que vaya sobre él,
ni por dentro de él:
sino para que me convierta en él mismo. Es su máximo don.
No quiere arrastrarme como otrora a mis tíos,
ni lentamente conducirme
como a mis abuelos, de serenos ojos certeros.

Sólo me acepta convertida en su naturaleza:
plástica, fluida, disponible,
igual a él, en constante solilóquio,
sin exigencias de principio y fin,
desprendida de tierra y cielo.

Y yo, que llegué cautelosa,
por buscar gente remota,
sospecho que me engañé,
que hay otras órdenes, que no fueron oídas;
que otra boca hablaba: no solamente la de antiguos muertos,
y el mar al que me mandan no es sólo este mar.

No es sólo este mar el que retumba en mis vidrieras,
sino otro, que se parece a él
como se parecen las imágenes de los sueños dormidos.
Y entre agua y estrella estudio la soledad.

Y recuerdo mi herencia de cuerdas y anclas,
y encuentro todo sobrehumano.
Y este mar visible levanta para mí
una faz espantosa.

Y retráese, al decirme lo que preciso.
Y es después una pequeña concha burbujeante,
mancha líquida e inestable,
célula azul sumiéndose
en el reino de otro mar:
¡ah! del Mar Absoluto.

Cecilia Meireles
(Versión de Pedro Casas Serra)