miércoles, 30 de septiembre de 2015

“O SONHO DA ARGILA“ de Thiago de Mello (De Narciso cego, 1952)

O SONHO DA ARGILA

O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro — e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
— permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto — em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove. 
Thiago de Mello (Narciso cego, 1952)

El SUEÑO DE LA ARCILLA

El vocablo puro, a que me acojo,
esquiva mi yugo; y, raro, canto.
Pues es inútil la palabra de la boca
si el soplo no le viene del corazón.

Mudo, contemplo las heroicas gestas
de quien funda caminos en la mar
y edifica ciudades y alza torres
desde donde puede dominar
el mundo entero — y ver que el mundo es poco.
Ante los que, ciegos, trabajan la tierra,
sorbiéndole los tesoros más ocultos,
sin sorpresa, en convivencia con los bueyes,
aprendiendo con ellos a ser humildes,
y duermen, llegada la noche, sosegados,
— permanezco callado, y sin embargo
algo en mí les envidia ese dormir.

No me lamento por saberme turbio
o por que no me cabe la paz de los brutos.
Sé que mañana moriré, pero no me enorgullezco
del sobrio rostro que disfraza el miedo.
Me mueve al canto ver que la sombra crece
dentro de mí, mientras un sol avaro
brilla oculto — en cielos sólo vislumbrados
cuando la arcilla, grotesca y osada, sueña.
Y ver lo inútil de esa arcilla que sueña,
más que moverme al canto, me conmueve. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

martes, 29 de septiembre de 2015

“O SABER ESCASSO” de Thiago de Mello (De Narciso cego, 1952)

O SABER ESCASSO

Pouco sabem as flores que de novo
ressurgem neste campo: não percebem
que alguém de longa e loura cabeleira
já não passeia pela verde alfombra,
e que entre as mãos que agora vão colhê-las
estão ausentes duas muito pálidas.

Ignorantes, porém, mais do que as flores,
nós o somos: jamais compreenderemos
porque esse deus eternamente oculto
ressuscita defuntas primaveras,
mas não desperta a moça que hoje dorme
na planície sem cor da deslembrança.
Thiago de Mello ( Narciso cego, 1952))
 
El SABER ESCASO

Poco saben las flores que de nuevo
brotan en este campo: no perciben
que alguien de larga y rubia cabellera
ya no pasea por la verde alfombra,
y que entre las manos que van a cogerlas
faltan dos muy pálidas.

Aún más ignorantes que las flores,
nosotros: jamás comprenderemos
porque ese dios eternamente oculto
resucita difuntas primaveras,
pero no despierta a la que hoy duerme
en la llanura del olvido.
 Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

lunes, 28 de septiembre de 2015

“NARCISO CEGO” de Thiago de Mello (De Narciso cego, 1952)

NARCISO CEGO

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador. 
Thiago de Mello (Narciso cego, 1952)

NARCISO CIEGO

Lo que se pierde de mí
acrecienta lo que soy.
Con todo, me desconozco.
Por mis contornos
paseo — no me visito.
En fuente yerma y esquiva
flota, íntegro, mi rostro.
Pero no me veo nunca: y sigo
con el rostro semioculto.
Oh qué amargo es no poder
cara a cara contemplar
aquello que ignoto soy;
distinguir hasta qué punto
soy aquel que me soporto
o es numen no revelado
que (para ser) viene a mí,
a vivir conmigo, en mí,
pero me deja si ruedo
por las laderas del mundo.
Me deshago de mi sueño
y me hago sueño de alguien
oculto. Tal vez un Dios
sueñe conmigo, codicie
lo que guardo y nunca usé.

Ciego así, no me descifro.
E imaginarme soñado
no me completa: el afán
de ser entero persiste.
Y oscilo — pánico mudo —
entre sueño y soñador. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

domingo, 27 de septiembre de 2015

“FIM DE MUNDO” de Thiago de Mello (De Narciso cego, 1952)

FIM DE MUNDO

Como em dia qualquer, a vida avança.
Eis quando, sem motivo, se enfraquece
a rigidez geométrica do espaço.
Súbito o sol estanca o seu girar
e se eterniza em puro meio-dia.
Noites, contudo várias, simultâneas
irrompem dos abismos; outras luas
derramam seu palor — maciamente
o equilíbrio do mundo se desfaz.

Nenhum estrondo turva, todavia,
o sossego do mundo em seu desfecho,
e a paisagem terrestre pouco sofre.
Os templos não desabam, edifícios
permanecem erguidos, e das torres
a sombra invade a rua, cautelosa;
não se interrompe o florescer nos campos.
Apenas, vagarosa, já se escoa
dos seres a substância que os anima.
Os pássaros se esquecem dos seus cantos,
os cavalos, aflitos, se prosternam,
e dos olhos dos bois vai se apagando
a solene humildade; silenciosa
uma estéril brandura envolve as feras.
À terra o mar devolve os seus defuntos,
mas rejeita-os a terra. Já são muitos
aqueles que fugiram de seus túmulos
e em confusa linguagem se interpelam
ante o assombro do vivo face à morte.

O assombro mesmo é curto: se dissolve
quando o barro que deu aos seres forma,
e trânsito aos amores e desejos,
vazio dos adornos incorpóreos
então se abraça à argila primitiva.
Sobra dos homens algo sobre o mundo
— pasto do tempo: as vestes e os sapatos.
A pena de existir logo abandona
o murcho coração das criaturas
e vai pousar agreste sobre as pedras
e as pedras se interrogam, conturbadas.
O mistério da vida enfim se irmana
ao mistério da morte: assim fraternos
emigram do terreno, sobrepairam,
escarnecem dos seres dissipados
e aos poucos vão tecendo a nebulosa,
berço talvez do próximo universo. 
Thiago de Mello (Narciso cego, 1952)

FIN DEL MUNDO

Como un día cualquiera, la vida avanza.
Entonces, sin motivo, se comprime
la rigidez geométrica del espacio.
Súbitamente el sol detiene su giro
y se eterniza en puro mediodía.
Noches, pero varias, simultáneas,
irrumpen de los abismos; otras lunas
derraman su palidez — blandamente
el equilibrio del mundo se deshace.
Sin embargo, ningún estruendo turba,
en su final, el sosiego del mundo,
y el paisaje terrestre sufre poco.
No caen los templos, los edificios
permanecen en pie, y la sombra
de las torres invade la calle, cautelosa;
no se interrumpe el florecer del campo.
Sólo, calmosa, de los seres
se escurre ya la substancia que los anima.
Los pájaros olvidan sus cantos,
los caballos, afligidos, se prosternan,
y de los ojos de los bueyes va borrándose
la solemne humildad; silenciosa
una estéril mansedumbre envuelve a las fieras.
El mar devuelve a la tierra sus muertos,
pero la tierra los rechaza. Son muchos ya
los que salieron de sus tumbas
y en confuso lenguaje se interpelan
ante el asombro de los vivos frente a la muerte.

El propio asombro es breve: se disuelve
cuando el barro que dio forma a los seres,
y movimiento a los amores y deseos,
vacío de los adornos incorpóreos
se abraza a la arcilla primitiva.
Queda algo de los hombres sobre el mundo
— pasto del tiempo: vestidos y zapatos.
La pena de vivir abandona inmediatamente
el corazón marchito de las criaturas
y va a posarse agreste sobre las piedras
y las piedras se interrogan, turbadas.
El misterio de la vida finalmente se hermana
al misterio de la muerte: así fraternos
emigran de la superficie, planean por encima,
se burlan de los disipados seres
y poco a poco van tejiendo la nebulosa,
cuna quizá del próximo universo. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

sábado, 26 de septiembre de 2015

“SOLILÓQUIO AO PÉ DO BERÇO” de Thiago de Mello (De Romance do Primogênito, 1952)

SOLILÓQUIO AO PÉ DO BERÇO

Cruzaste
a porta do tempo.
Sem resplendores (chegaste)
de sol ferindo o levante,
fulges-me aos olhos — cristal
entre sonho e a relembrança
do que não sou, do que fui.

(...)

Perante a paz de teu sono.
dentro de mim se desfralda
um jeito novo de amar.
Meus vícios e desvirtudes
cabisbaixos se recolhem
ao mais secreto de mim,
para depois regressarem
humildemente velados
sob as roupagens do amor,
como flores falecidas
que por milagre recobram
suas pétalas mais brancas.

(...)

Teu pranto, de claro timbre,
com suavidades de canto,
leva-me à lágrima, arranca
de céu estéril, orvalho
que, de tão puro, dissolve
os seixos de antigas penas:
de sobre a magoada areia
que entre pesares palmilho,
teu suave pranto me leva
a ignotos ermos caminhos
onde, foscos, se derramam
palores de nove luas.

Em troca, nada te dou.
Meu filho, és retardatário:
o que talvez fora puro
— límpida pérola intacta
no coração escondida —
era frágil, se quebrou.
A porção a mim legada
de substância que permite
mudar de pouso as montanhas,
ouvir o canto das pedras
e caminhar sobre as águas,
era pouca, se acabou.

Pelas esquinas do mundo,
os mistérios já te espreitam
com suas múltiplas faces:
as sombras da solidão
já se insinuam, de manso,
rumo aos campos de teu ser.
Ah que pobre amor paterno!
Pobre de mim, andarilho
cego e sujo, desprovido
dos mais frágeis artifícios
que te afastem dos tormentos
a que nasce condenado
um homem — ser cuja glória
se resume nos covardes
passeios pela floresta
enquanto o Lobo não vem.

Sem mão que possa guiar-te
(mal-aventurada mão!)
em futuros desamparos,
sem boca que te anuncie
o tempo dos malefícios,
uma ventura me resta:
és meu filho — dou-te a bênção.

(...)

E porque nada possuo
digno de oferta a quem chega
de mãos vazias ao mundo,
é que te fiz, sob disfarce
de conversa, este inaudível
solilóquio ao pé do berço. 
Thiego de Mello (Romance do Primogênito, 1952)

SOLILÓQUIO A PIE DE CUNA

Cruzaste
la puerta del tiempo.
Sin resplandores (llegaste)
de sol hiriendo el levante,
ciegas mis ojos — cristal
entre sueño y remembranza
del que no soy, del que fui.
(...)

Ante la paz de tu sueño.
dentro de mí se despliega
un modo nuevo de amar.
Mis vicios e imperfecciones
cabizbajos se retiran
a lo más hondo de mí,
para después regresar
humildemente cubiertos
bajo ropajes de amor,
como flores abatidas
que de milagro recobran
sus pétalos más albinos.
(...)

Tu llanto, de claro timbre,
con suavidades de canto,
me hace llorar, arrancando
del cielo estéril, rocío
que, de tan puro, disuelve
las piedras de antiguas penas:
de la magullada arena
que entre congojas recorro,
tu suave llanto me lleva
a ignotos yermos caminos
donde, oscuros, se derraman
palores de nueve lunas.
En cambio, nada te doy.
Hijo, es desolador:
lo que tal vez fuera puro
— límpida perla intocada
en corazón escondida —
era frágil, se quebró.
La porción a mí legada
de substancia que permite
cambiar de sitio montañas,
oír cantar a las piedras
y caminar sobre el agua,
era poca, se acabó.
Por las esquinas del mundo,
los misterios ya te acechan
con sus múltiples semblantes:
sombras de la soledad
ya se insinúan, tranquilas,
rumbo a partes de tu ser.
¡Ah que pobre amor paterno!
Pobre de mí, caminante
ciego y sucio, desprovisto
del más frágil artificio
que te aleje los tormentos
a que nace condenado
un hombre — ser cuya gloria
se resume en los cobardes
paseos por la espesura
mientras el lobo no viene.
Sin mano que pueda guiarte
(¡malaventurada mano!)
en futuros desamparos,
sin boca que te presagie
los tiempos de maleficios,
aún una dicha me resta:
hijo mío — te bendigo.
(...)

Y porque nada poseo
digno de dar a quien llega,
manos vacías, al mundo,
te hice, bajo disfraz
de charla, este silencioso
soliloquio a pie de cuna. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra) 

viernes, 25 de septiembre de 2015

“UM MENINO CHEGA AO MUNDO” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

UM MENINO CHEGA AO MUNDO
Chegou ao mundo um menino
mais sozinho que a primeira
estrela que acende a noite.
Nenhum pano o envolvia.
Além, do suave fulgor;
trazia o condão da infância
que aos homens faz tanta falta.

Bois não rodeavam o menino.
Nem burros. Puro silêncio
orlava o claro mistério
de um coração sem pecado.

Os pastores da comarca
cuidavam na madrugada
dos seus rebanhos. Os anjos
que navegam no céu
ao trabalho se deram
de anunciar que um menino
chegava com um recado
ao tempo da eternidade.

Mais que rês, trezentos mil
magos são que hoje dominam
os sortilégios das mirras,
dos incensos e dos ouros.
Mas nenhum deles chegou
com oferenda à criança.

As estrelas que nos cobrem
já mal sabem de caminhos
que levem o homem à frágua
onde se forjam milagres.

Os homens fugiram todos.
Infância já infunde medo:
Aquele recém-chegado
reacendia brasas murchas
e recordava que cinzas
escondem constelações

O menino, atravessando
mordidas e escuridões
não achou sequer lugar
numa estalagem do mundo.
Aconchegada na rua,
perdida ficou a infância
por entre as gretas escusas
da indiferença dos homens.
Thiago de Mello (Silêncio e Palavra, 1951)
UN NIÑO LLEGA AL MUNDO

Un niño al mundo llegó
más solo que la primera
estrella que abre la noche.
Ningún paño lo envolvía.
A más del suave fulgor,
traía el don de la infancia
que tanto falta a los hombres.

Ningún buey rodeaba al niño.
Ni burro. Puro silencio
orlaba el claro misterio
de un corazón sin pecado.
Pastores de la comarca
cuidaban de madrugada
a sus rebaños. Los ángeles
que navegan por el cielo
no se dieron el trabajo
de avisarles de que un niño
llegaba con un mensaje
de la eternidad al tiempo.

Más de unos trescientos mil
son los magos que hoy dominan
los conjuros de las mirras,
los oros y los inciensos.
Pero ninguno llegó
con ofrendas para el niño.
Las estrellas que nos cubren
no saben ya de caminos
que conduzcan a la fragua
donde se forjan milagros.

Huyeron todos los hombres.
Ya infunde miedo la infancia:
El niño recién llegado
reavivaba mustias brasas
recordando que cenizas
esconden constelaciones.
El pequeño, atravesando
pesares y oscuridades
ni siquiera halló lugar
en posadas de este mundo.
Aposentada en la calle,
perdida quedó la infancia
entre cuarteadas escusas
de la indiferencia humana.
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 24 de septiembre de 2015

“TEMO POR MEUS OLHOS” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

TEMO POR MEUS OLHOS

Temo por meus olhos
diante das puras vestes.
E no entretanto, desejo.

Temor que sugere o epílogo
de ser cântaro partido
ao lado de fonte pródiga.

A não contemplar, prefiro
definitiva cegueira.

Não como os homens cegos,
mas como os pés das crianças
que são cegos, caminhando. 
Thiago de Mello (Silêncio e Palavra, 1951)

TEMO POR MIS OJOS

Temo por mis ojos
ante puras vestiduras.
Y sin embargo, deseo.

Temor que sugiere el fin
de ser cántaro partido
al lado de fuente pródiga.

A no contemplar, prefiero
ceguera definitiva.

No como los hombres ciegos,
sino como pies de niños
que son ciegos, caminando. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra) 

martes, 22 de septiembre de 2015

“SILÊNCIO E PALAVRA” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

SILÊNCIO E PALAVRA

I

A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

II

Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura – ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos homem e palavra. 
Thiago de Mello (Silêncio e Palavra, 1951)

SILENCIO Y PALABRA

I

Armadura de palabras
protege nuestro silencio
y oculta aquello que somos.
¿Qué importa que hablemos tanto?
Tan sólo repetiremos.
Además, ni son palabras.
Sones faltos de mensaje,
son cual la fría mortaja
del difunto cotidiano.
Como pájaros cansados,
sin lugar donde posar
ciertamente caerán.
Muchos veranos se siguen:
el tiempo dora los frutos,
blanquea nuestros cabellos.
Mas el nocturno hombre espera
la aurora de nuestra boca. 
II

Si manos extrañas rompen
el traje que nos esconde,
hallarán una verdad
en forma no revelable.
(Y los hombres de ojos sucios,
no pueden ver a través.)
Pero un día llegará
en que la ofrenda a los dioses,
dada en forma de silencio,
en palabra transformemos.
Y si por suerte nos damos
al mundo, como la flor
que se ofrece – humilde y pura – ,
habremos cumplido entonces
la misión dada al poeta.
Y como son ola y mar,
seremos hombre y palabra. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra) 

“RUMO” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

RUMO

Somente sou quando em verso.

Minhas faces mais diversas
são labirintos antigos
que me confundem e perdem

Meu pensamento perfura
muros de nada à procura
do que não fui nem serei.

Ante a carne fêmea e branca
meu corpo se recompõe
ofertando o que não sou.

Meu caminhar e meus gestos
mal e apenas anunciam
minha ainda permanência.

Para chegar até onde
não me presumo, mas sou,
sigo em forma de palavra. 
Thiago de Mello (Silêncio e Palavra, 1951)
RUMBO

Soy solamente en el verso.

Mis caras más diferentes
son antiguos laberintos
que me confunden y pierden

Mi pensamiento perfora
muros de nada a la busca
del que no fui ni seré.

Ante la carne hembra y blanca
mi cuerpo se recompone
brindando lo que no soy.

Mi caminar y mis gestos
apenas y sólo anuncian
mi duración todavía.

Para llegar hasta dónde
no conjeturo, mas soy,
sigo en forma de palabra. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra) 

domingo, 20 de septiembre de 2015

“ROMANCE DE SALATIEL” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

ROMANCE DE SALATIEL

I — O velório

Se foi triste, se não foi,
se gostou de olhar o azul,
se sofreu por desamor,
se digeria a contento,
se procurou Deus (achou-o?)
não conta mais.

Salatiel
Já é matéria sem ganga,
que se oferta, horizontal,
aos olhares e aos pesares.

Chegam vizinhos, amigos
de longa data, parentes
trajando roupas de festas.
E ao penetrarem na sala,
onde Salatiel repousa
de todos os cansaços,
esquecem-se de si próprios
ou porventura se encontram
com total exatidão:
o rosto bêbado é sóbrio,
o folgazão, compungido,
os sempre austeros ensaiam
gestos suaves e os tristes
disfarçam sua tristeza.
Mas Salatiel defunto
adorna o meio da sala
sombria, apesar das flores,
sem nem perceber, que pena
que o gordo senhor de óculos
veio lhe pedir perdão
por malquerenças antigas,
um vulto esguio num canto,
a recordar o colóquio
que teve com o morto, um dia,
chuvoso, em antiga praça,
e desse encontro conserva
lembrança em forma de flor,
que perdura, delicada,
entre as páginas de um livro
de poemas dee amor eterno,
do seu barbeiro, contrito,
que lhe contempla o bigode,
a barba espesa, azulada,
e lembra canção de infância
contando que o capinzal
é cabeleira de mortos.

Pelas narinas do morto,
que já não sentem o aroma
do café que corre a sala,
penetra o velado som
dos faladores incautos:
cada qual lembra seus mortos,
todos bons, quase perfeitos
em sua humana condição,
imperfeitos, porque humanaos,
mas isentos da soberba.

Depois cambiam de tema:
falam de jogos, de guerras,
comentam velhas intrigas,
fazendo sempre um parêntesis
para louvar as virtudes
de quem foi Salatiel.
Que já não é. Suas orelhas
são búzios côncavos, secos.

Ah, Salatiel, se visses
a ternura de teu filho,
de todos o mais rebelde,
que regozijo seria.
Com quanto zelo ele muda
as velas dos castiçais
e espanta — no gesto, afago—
a mosca da tua boca.

Mas Salatiel não vê.
Como também não percebe
as filhas arrematando
com seus soluços ritmados
o choro seco da mãe
que, em seu respeito ao defunto,
repele os erros furtivos,
o desamor não contado
e o desapreço profundo
de saber-se repartida
que lhe voltam à memória,
já se dissolvem no pranto
e o purificam.

II — O sepulcro

Na clareira de treva
em que o tempo não conta
e onde o brilho de luas
afoga-se em argila,
os vermes já circundam
a carne recém-vinda.
Abraçam-na com júbilo
de seres separados
que afinal se reencontram
e este abraço revela
um sutil parentesco:
não aquele que implica
em um correr de hormônios,
certas cumplicidades
pobres conquanto físicas
e que o tempo desgasta
e em lembrança converte.
Outro, porém, mais fundo,
que elimina a distância
do que, por ser minguado,
alonga-se no sonho,
ao exato minério
feliz em seu contorno:
e brandamente reúne
a besta que se entrega
a êxtases promíscuos
e o que de amor constrói
sandálias adequadas
para a longa excursão,
numa aventura só
de crescer e acabar
e aguardar, entre sombras,
que a mão cega do mundo
vá recompondo as cinzas.

E com um linguajar
que só as coisas entendem
os vermes confabulam
acerca do destino
deste novo parente
que, aos poucos, se devolve
ao útero da terra.

III — Epílogo

O dono de tal carne, todavia,
conhece a paz de canto em que se evola
de garganta demasido tensa.
Liberto dos enredos da memória,
isento de esperança, ele palmilha
os caminhos abstratos, modulados
em matéria de além, de sono puro.

Salatiel não-sendo desconhece
a exata perfeição do que não é
e integra-se à paisagem absoluta
onde nem sombras há das três colunas,
suportes do planalto que assegura
o repouso dos deuses fatigados:
consante prolongar do sétimo dia.
O outrora sonhador de galardões,
que passeou pelo bosque dos enigmas
e entregou-se a engenhos intrincados
como o de mergulhar na própria luz
e de lá regressar sujo de treva,
ou do chão mais rasteiro para erguer montanhas,
exerce, então, mister dos mais humildes:
Salatiel não sendo já faz parte
do azul na arquitetura do vazio. 
Thiago de Mello  (De Silêncio e Palavra, 1951)


 
ROMANCE DE SALATIEL

I — El velatorio

Estuviese triste o no,
gustó de mirar el cielo,
padeció por desamor,
se alimentaba contento,
a Dios buscó (¿lo encontró?)
no importa ya.

Salatiel
es ya materia sin ganga,
que se ofrece, horizontal,
a miradas y congojas.
Llegan vecinos, amigos
de mucho tiempo, parientes
vistiendo ropas de fiesta.
Y al penetrar en la sala,
donde Salatiel reposa
de tantísimas fatigas,
no se acuerdan de sí mismos
o por ventura se encuentran
con total exactitud:
el rostro borracho es sobrio,
el alegre, compungido,
los siempre austeros ensayan
gestos suaves y los tristes
disimulan su tristeza.
Pero Salatiel difunto
orna el centro de la sala
sombría, pese a las flores,
sin percatarse, qué lástima,
que el señor gordo con gafas
vino a pedirle perdón
por antiguas malquerencias,
uno alto en una esquina,
a recordar el coloquio
que tuvo con el difunto,
en la plaza un día lluvioso,
y de ese encuentro conserva
recuerdo en forma de flor,
que perdura, delicada,
entre las hojas de un libro
de poemas de amor eterno,
de su barbero, contrito,
que le contempla el bigote,
la barba espesa, azulada,
y evoca cantos de infancia
narrando que el hierbazal
es cabellera de muerto.
Por las narices del muerto,
que no aspiran el aroma
de café que hay en la sala,
penetra el velado hablar
de los incautos bocazas:
todos recuerdan sus muertos,
tan buenos, casi perfectos
en su humana condición,
imperfectos, por humanos,
pero exentos de soberbia.

Luego varían de tema:
hablan de juegos, de guerras,
comentan viejas intrigas,
haciendo siempre un paréntesis
para loar las virtudes
de quien fuera Salatiel.
Que ya no es. Sus orejas
son conchas cóncavas, secas.
Ah, Salatiel, si tú vieras
la ternura de tu hijo,
el más rebelde de todos,
que contento que estarías.
Con cuanto celo él renueva
de velas los candeleros
y espanta — con dulce gesto—
una mosca de tu boca.

Pero Salatiel no ve.
Como tampoco percibe
a sus hijas rematando
con sus hipidos ritmados
el seco llanto materno
que, por respeto al difunto,
ahuyenta errores furtivos,
desamores no narrados
y el menosprecio profundo
de saberse compartida
que vuelven a su memoria,
se disuelven en el llanto
y lo purifican.
II — El sepulcro

En claridad de tinieblas
en que nada cuenta el tiempo
y donde el brillo de lunas
se disimula en arcilla,
los gusanos ya circundan
la carne recién llegada.
La abrazan con la alegría
de personas separadas
que finalmente se encuentran
y en este abrazo revelan
un suave parentesco:
no aquel que viene ya implícito
en un propagar de hormonas,
pequeñas complicidades
pobres por cuanto son físicas
que va desgastando el tiempo
y convirtiendo en recuerdos.
Sino otro, más profundo,
que deshace la distancia
de lo que, por ser menguado,
va prolongando en el sueño,
hasta aquel mismo filón
que es feliz en su contorno:
y reúne con bondad
a la bestia que se entrega
a los éxtasis promiscuos
y lo que hace del amor
las sandalias adecuadas
para una larga excursión,
en la aventura tan sólo
de crecer y terminar
y aguardar, entre las sombras,
que ciega mano del mundo
amontone las cenizas.

Y en su propio dialecto
que sólo ellos comprenden
los gusanos van hablando
sobre la fatalidad
de este inédito pariente
que, lentamente, regresa
al útero de la tierra.
III — Epílogo 

 
El dueño de la carne, todavía,
oye la paz del canto que se eleva
de una garganta demasiado tensa.
Libre de los enredos del recuerdo,
exento de esperanzas, él recorremos
los caminos abstractos, modulados
del ser del más allá, de sueño puro.

No siendo, desconoce Salatiel
la exacta perfección de lo que no es
e integra totalmente en el paisaje
donde no hay sombra de las tres columnas,
soportes de altiplano que aseguran
el reposo a los cansados dioses:
prolongación tenaz del día séptimo.

El antes soñador de galardones,
que por bosques de enigmas paseó
y se entregó a ingenios intrincados
como el bucear en la luz propia
y de allá regresar sucio de sombras,
o alzar montañas del rastrero suelo,
ejerce, ya, labores más humildes:
No siendo, Salatiel forma ya parte
del azul en la arquitectura del vacío.

Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

“NÃO FUI PROFETIZADO” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

NÃO FUI PROFETIZADO

Não fui profetizado. Aconteci.
Como é difícil cumprir
missão que não recebi.
Vivendo foi que aprendi
a que vim ao mundo: amar.

Quando liberto do tempo
me pediram testemunho,
as minhas mãos mostrarei:
não terei marca de cravos.
Verão, indeléveis, lanhos
da rosa que mais amei. 
Thiago de Mello  (De Silêncio e Palavra, 1951)

NO FUI PROFETIZADO

No fui profetizado. Acontecí.
Qué difícil es cumplir
misión que no recibí.
Viviendo fue que aprendí
a qué vine al mundo: a amar.

Cuando librado del tiempo
me pedirán testimonio,
mis manos enseñaré:
no tendrán marcas de clavos.
Verán, indelebles, daños
de la rosa que yo amé. 
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra) 

sábado, 19 de septiembre de 2015

“BREVE SERÁ DEZEMBRO” de Thiago de Mello (De Silêncio e Palavra, 1951)

BREVE SERÁ DEZEMBRO

Somos homens e sabemos
que breve será dezembro
no tempo de nossa carne.
Se habitaremos um tempo
de limites impossíveis,
somos homens, não sabemos.
E a despeito do cansaço.
quase nada percorremos
da estrada que nos tocou.

De nosso tivemos pouco:
tivemos crenças legadas,
herdamos o sangue antigo
e sobretudo o desejo.
Prolongamos o roteiro
que a mão primeira traçou.
Nosso corpo limitado
serviu de atalho à infinita
substância do pecado.

De tudo, apenas foi nosso
o débil gesto esboçado
que se extinguiu muito aquém
da fronteira.

Contudo, algo esperamos. 
Thiego de Mello ( (De Silêncio e Palavra, 1951)

SERÁ BREVE DICIEMBRE

Somos hombres y sabemos
que diciembre será breve
en tiempo de nuestra carne.
Si habitaremos un tiempo
de límites imposibles,
lo ignoramos, somos hombres.
Y a despecho del cansancio.
casi nada recorremos
del curso que nos tocó.
De nuestro tuvimos poco:
tuvimos creencias legadas,
heredamos sangre antigua
y sobre todo el deseo.
Prolongamos el trayecto
que trazó mano inicial.
Nuestro cuerpo limitado
fue el atajo a la infinita
sustancia del pecado.
De todo, apenas fue nuestro
el débil gesto esbozado
que se extinguió de este lado
de la frontera.

Sin embargo, algo esperamos.
Thiago de Mello
(Versión de Pedro Casas Serra)

jueves, 17 de septiembre de 2015

¡A Granada!

¡Usaremos las manos de troneras
para desalojar a los ladrones
que vienen a robarnos nuestro amor!

Vuela cantando el tren y entre silbidos,
-¡qué importa el color del corazón si es puro!-,
nos lleva a los castillos de la Alhambra.

¡Cómo ansían de agua nuestros cuerpos!
¡Pequeños nos volvemos al mirarla!
Roja pasión nos llama... ¡y allá vamos!

Pedro Casas Serra

Voces de Salamanca


Pusieron los cristianos
sus catedrales,
donde antes los romanos
sus ojuelos.


Salamanca es una isla
que quisiera ser jardín,
espíritus blasonados
nunca acaban de morir.

Si ríe es una bengala,
y si llora es un rubí,
cosidas sus cresterías
con hilos de oro y orín.

Campanas de sus iglesias,
que a mi me hacen tilín,
me invitan a ir de paseo
montado en un calesín.

..........

Cuando veo a mi niño,
quedo desnudo,
y de comer limones,
tartamudo.

Que si me bebe el agua,
deja contento,
y si pasa de largo,
deja sediento.

¡Niño de los melones,
ven a mi vera!,
¡si una vez resucito,
ocho me muera!

..........

Si me dices que sí,
te dejo vivir,
si me dices que no,
te condeno yo.

Como antes los conventos
eran más grandes,
o había más penitentes,
o había más hambres.

Franco y la Inquisición
con sus prisiones...
si primero marranos,
luego masones.

Muchos ciegos buscando
su lazarillo,
se sientan en sus aulas,
por sacar brillo.

..........

¿Dónde paran las piedras
de los salones
que levantaron?
¿Dónde los estandartes
y los pendones
que arrebataron?

Las piedras de palacio,
poquito a poco,
se las llevaron.
Las naciones vencidas,
una tras otra,
se rebelaron.

Que si el vivir es morir
y el morir es el vivir,
si hoy ayudo a la santa
en sus fundaciones,
me ganaré de muerto
sus bendiciones.

..........

Por no despertar pasiones,
no me asomo a mis balcones;
sólo en fastas ocasiones,
entreabro mis calzones.
"Quoque natura donat,
Santus Petrus benedicat".

Pedro Casas Serra

miércoles, 16 de septiembre de 2015

El volcán

Era temprano, apenas
clareaba el día.
Bajé del coche e inicié el camino
que por su falda,
lleva al volcán de Santa Margarita.
Llegado arriba, vi la verde taza
y en su centro, la ermita.
Quise alcanzarla
y la senda, girando,
me condujo hasta el cráter.
Allí, algo más lejos,
vi un saco de dormir
-estaba en medio
del cráter del volcán
y en su interior
una pareja hacía el amor.
Me alejé para no turbar su acierto.
Pedro Casas Serra

martes, 15 de septiembre de 2015

Pocas cosas hay...

Pocas cosas hay como entrar
en el mar despacio y que el agua
vaya subiendo por tu cuerpo
produciéndote diversas sensaciones
según la parte del mismo que alcanza,
nadar unas brazadas alejándote
de la orilla y dejarte balancear
haciendo el muerto, y si es un día
de ésos en los que hace resaca,
vencer la misma, y al llegar
donde rompen las olas, arrojarte
a la arena como un madero viejo.

Pedro Casas Serra

lunes, 14 de septiembre de 2015

¿Recuerdas Marrakech, la de la Koutouvia?

¿La que en verano muere al mediodía y resucita al ponerse el sol?
¿la de las inmensas murallas de adobe rojo?
¿la que sólo tiene hombres en las terrazas de sus cafés?
¿la de los dulces apilados y las comidas especiadas?
¿la de los vergeles tras las tapias?
¿la de los jóvenes que te miran y dicen “ça va?”
¿la de las motocicletas que hay que sortear para cruzar las calles?
¿la de las calesas para turistas y los camellos para hacerse una fotografía?
¿la de la inmensa plaza Djamâa El Fna, abarrotada de diversas gentes?
¿la que no permite a los infieles visitar sus mezquitas?
¿la de los zocos de enrevesadas calles e infinitos productos?
¿la de las noches frescas y sosegadas y los días calientes y bulliciosos?
¿la que cuida y protege sus palmeras hasta cuando levanta un muro?
¿la de las carpas doradas que llenan a rebosar el estanque de la Menara?
¿la que escucha la voz de sus muecines cinco veces al día?
¿la de las bellas mujeres, de caras blanquísimas, vestidas con sus túnicas?
¿la de las fuentes en que juegan niños y las torres con cigüeñas?
¿la que huele a jazmín junto a sus muros y a boñiga en su asfalto?
¿la del cielo casi blanco y los edificios color salmón?
¿la de las grandes puertas y junto a ellas los cementerios?
¿la de los gatos enmascarados que recorren por la noche sus murallas?
¿la de los vendedores que te llaman y te tocan?
¿la del té a la menta y el regateo?
¿la que llenaba con multitudes sus jardines al atardecer?
¿la que acogió nuestros pasos y nuestro amor? 

Sí, la recuerdo.

Pedro Casas Serra

domingo, 13 de septiembre de 2015

La charca

Hasta aquí me trajo la soledad
que sirviéndome de traje me acompaña.
¿Qué más da que me mueva entre la gente
si entre ella no hallan eco mis palabras?
He caminado mucho, doblado mil esquinas,
para no hallar detrás sino otra esquina y otra.
He gritado, he cantado, he hablado, he suspirado...
y mi voz se ha perdido entre millones de otras.

Por eso, al divisar la flor de las adelfas
en el arroyo seco, me he acercado
y he encontrado la charca de aguas verdes,
festoneada de juncos y de cañas, similar a un espejo,
y cansado, me he echado junto a ella, en su orilla,
y he entornado los ojos para hallar el reposo
y encontrarme a mí mismo, ya que no encuentro a otro
que atienda mis razones y me entregue las suyas.

Y al abrirlos, he visto dobladas mis facciones,
y la misma pregunta al fondo de otros ojos,
y me he alzado deprisa, en un acto reflejo,
dispuesto a abalanzarme en el agua a su encuentro,
cuando una mano firme me ha aferrado del hombro
y al girarme, he encontrado, junto a mí, a mi reflejo.
Pedro Casas Serra

sábado, 12 de septiembre de 2015

Coplillas de Tulebras

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

Por esta vía verde
Tarazonica,
camina que camina,
bien aprisica.

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

Ayer por la mañana,
allá en Barillas,
vimos correr los mozos
a las vaquillas.

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

De Tulebras saliendo,
por la laguna,
falta medio camino...
¡ya son la una!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

¿Qué le echarán las monjas
a sus cocidos,
que siempre están tan ricos,
tan bendecidos?

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

Voy a ver del Romero
la virgencita,
¡Madre de Dios hermoso,
qué cuestecita!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

Prendado del paisaje
quedé en Ablitas.
¡Cuantas cosas que vimos,
y qué bonitas!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

En la iglesia posadas,
allá en Cascante,
¡si no eran veinte cigüeñas...
no eran bastante!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

¡Vaya con el obispo
de Tarazona!,
¡qué casita la suya!,
¡qué buena zona!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

De piedra como el puente,
quedé en Tudela,
al mirar de los Fueros,
la redondela.

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

Viniendo de Malón,
de beber vino,
se nos hizo de noche
por el camino.

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

¡Qué grande es de Tulebras
el Monasterio!
¡Qué chiquitico al lado
su cementerio!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

El río Queiles bajando,
desde los puertos,
¡menudos ajos saca
por estos huertos!

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡qué tarde que era!

Con tantos campanazos,
por sus maitines,
nos tocan las monjitas...
los cataplines.

¡Quién lo dijera!
Pensando que era pronto...
¡y tan pronto que era!
Pedro Casas Serra